O britânico James Bond é lindo, charmoso, inteligente, dirige carrões sofisticados e lida com crimes: ele os resolve.

O italiano Diabolik é lindo, charmoso, inteligente, dirige um carrão sofisticado (um Jaguar preto) e lida com crimes: ele os comete.

Você apostaria que as histórias de um personagem assim – que rouba e inevitavelmente sai impune – seriam um sucesso? Duas irmãs italianas apostaram… e acertaram na mosca. Elas criaram um dos personagens mais famosos da Europa. Curiosidade: um herói da Disney e até um dos X-Men são diretamente inspirados nele.

Angela Giussani (1922-87) e Luciana Giussani (1928-2001), nascidas em Milão, lançaram o Diabolik em 1962. As histórias mensais seguem um padrão: impulsionado pela sua inteligência e apoiada pela namorada, Eva Kant, o misterioso Diabolik realiza assaltos. A polícia, claro, o persegue. Mas, para azar do infeliz inspetor Ginko, o mascarado sempre foge.

Angela, a mais velha, havia sido passado por outras atividades antes de entrar no mundo dos quadrinhos. Foi modelo, jornalista e tinha breve de piloto. Em 1961, criou a editora Casa Editrice Astorina. No ano seguinte, lançou seu personagem mais famoso (Diabolik), o qual é publicado até hoje pela mesma editora.

Luciana, que até então trabalhava em uma fábrica de aspirador de pó, se juntou a ela nos roteiros e na edição da revista a partir do segundo número e continuou escrevendo as aventuras do personagem até pouco antes de sua morte, em 2001. Juntos, criaram toda a mitologia do personagem.

No início, Diabolik era “apenas” um vilão. Roubava e, se necessário, matava. Com o tempo, a personalidade dele foi sendo moldada, e ele passou a furtar de criminosos ou corruptos – seria um Robin Hood se passasse a grana adiante, o que não era o caso.

Toda a mitologia de Diabolik é envolta em mistério. Órfão, foi criado em uma ilha secreta por uma organização criminosa. Lá, aprendeu todos os talentos que viria a usar em sua carreira fora da lei. Quando pôde, fugiu. E não é à toa que o nome dele nunca foi revelado: nem mesmo ele sabe como se chama.

Além da identidade secreta, Diabolik tem outras semelhanças com o universo dos super-heróis (no caso dele, super-vilões): por exemplo, o uniforme. O charmoso ladrão usa sempre uma vistosa roupa preta que cobre todo seu corpo, exceto pelos olhos. Além disso, atua em uma cidade fictícia: Clerville, que fica no país de mesmo nome.

A namorada e aliada Eva Kant

O vilão não tem superpoderes, mas só ele sabe uma fórmula secreta que usa em uma máscara que é tão moldável que permite que assuma o rosto de quem quiser – uma mão na roda para quem quer cometer crimes incógnito, certo?

Diabolik é, até hoje, um grande sucesso na Itália. Inspirou radionovelas, filme (“Danger: Diabolik”, de 1968), desenho animado (em 2000), romances, videogames (12!) e paródias como… o Superpato.

É um pássaro? É um avião? É um bandido vestido de preto?

Sim, a identidade secreta do pato Donald não é uma homenagem ao Superman, como o nome em português pode indicar. Paperinik (seu nome original, em italiano) é uma paródia tanto de Diabolik (como o próprio nome indica) quanto de outro personagem europeu que comete crimes: o Fantômas, criado em 1911 pelos franceses Marcel Allain e Pierre Souvestre.

Já o membro dos X-Men também inspirado em Fantômas e Diabolik é o anti-herói Fantomex, criado em 2002 por Grant Morrison e Igor Kordey. O uniforme é igual ao do personagem italiano, mas branco em vez de preto. Além disso, se o vilão italiano é auxiliado pela namorada chamada Eva, o x-man conta com E.V.A., uma inteligência artificial.

Atualmente são publicados, por ano, mais de 4 milhões de exemplares de Diabolik. Pelo visto, em Clerville, o crime compensa – pelo menos, o cometido contra outros criminosos.

ps – Este post é o 17º de uma série chamada “Quadrinistas Eternos”. Na próxima terça será a vez de Will Eisner. Já publicados:

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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