Hoje vou falar do quadrinista norte-americano Winsor McCay (1866?-1934). Na verdade, eu poderia ser sintético e reduzir este artigo a uma frase:

Winsor McCay é meu quadrinista favorito de todos os tempos e recomendo a leitura de tudo o que ele criou.

Mas acho que você ficaria um pouco insatisfeito com isso, não é? Então, vamos aprofundar um pouco sobre este pioneiro na arte das histórias em quadrinhos.

Zenas Winsor McCay, que também assinava como Silas, sempre foi um ilustrador técnico e detalhista, que soube aproveitar tudo o que tinha a seu alcance, da tipologia às cores. E impressionantemente rápido. Criativo, nunca ficou preso “apenas” aos quadrinhos, mas também criou, escreveu e dirigiu excelentes curtas de animação.

Estarei exagerando ao dizer que meu quadrinista favorito é excelente? Não quero induzir ninguém a nada, mas assista ao curta “Gertie the Dinosaur”. Lembre-se: é de 1914.

Os traços são leves e lindos. Os personagens, expressivos e carismáticos. A história, divertida. E, claro, tudo isso não veio do nada. McCay teve uma longa carreira de aprendizagem para chegar até lá.

McCay começou a trabalhar com ilustrações em 1889. De 1891 a 1900, criou pôsteres e anúncios para museus e teatros. Isso, claro, foi uma grande oportunidade para desenvolver um senso de composição dos personagens e cenários na página.

Em 1896, um dos museus para o qual ele prestava serviço fez uma demonstração do vitascópio de Thomas Edison, um dos precursores do cinema – arte na qual McCay também viria a ser um precursor. Neste mesmo ano, McCay começou a frilar para jornais. Ou seja: experimentou muitas áreas diferentes de ilustração antes de focar seu talento nos quadrinhos e na animação.

Foi apenas em 1903 que McCay começou a trabalhar como quadrinista, com a adaptação de “A Tale of the Jungle Imps by Felix Fiddle”, poema de George Randolph Chester. A primeira tira de sua autoria foi “Mr. Goodenough”, que estreou em 1904. Era uma história de humor, com um milionário tentando deixar de ser sedentário, mas fazendo tudo errado (me identifiquei com ele, exceto pela parte de ser milionário). No mesmo ano, estrearam “Little Sammy Sneeze” e “Dream of the Rarebit Fiend”.

McCay tocou “Dream of the Rarebit Fiend” por 21 anos. Trata-se de uma tira curiosa, sem personagens fixos. O que havia era um tema: um pesadelo ou um sonho bem estranho. Oportunidade perfeita para que o artista mostrasse todo seu virtuosismo e criatividade. Poderia aparecer um homem gigantesco dobrando um edifício como se ele fosse de borracha; uma criança e sua cama voando por lugar nenhum; uma pessoa sendo enterrada sem que percebessem que ela estava viva. Não precisava fazer sentido. Era intencionalmente surreal – e lindo. A tira fez sucesso e virou um curta live-action em 1906, dirigido por Edwin S. Porter.

A obra-prima de McCay surgiu em 1905: “Little Nemo” (Pequeno Nemo). Lembra “Dream of the Rarebit Fiend”, mas com um personagem fixo, o Little Nemo do título. A série mostra os sonhos do Little Nemo, que sempre acorda no último quadro da página (caindo da cama, inevitavelmente).

Tenho em casa um livro com toda as páginas lançadas entre 1905-1914. Houve uma “série complementar” entre 1924 e 1927. É um desbunde.

Nas primeiras histórias, é possível ver que McCay ainda está experimentando a linguagem: às vezes há tantas palavras dentro de um recordatório que as letras ficam espremidas para caber tudo. Mas, depois de pouco tempo, há páginas criadas como se fossem quadros – ou pôsteres, se lembrarmos do trabalho dele na década anterior.

O fato de ser um sonho valoriza a possibilidade de McCay exibir sua técnica. Os rios, as escadas, a Estátua da Liberdade, as florestas, as cidades… São todas ilustradas com maestria, mas colocadas na página de uma maneira que lembra a estranheza de um sonho (por exemplo, fora de proporção).

O ambiente onírico também valoriza a inovação. A criatividade do artista era testada semanalmente, e ele aproveitava a oportunidade para layouts diferentes, figurinos hilários, cenários nada convencionais… Mais do que um pioneiro dos quadrinhos, McCay foi um revolucionário.

McCay provavelmente não dormia. Isso poderia explicar como produzia tanto. Paralelo ao seu trabalho com quadrinhos, ele também investia em animação. Criou dez curtas entre 1911 e 1921, como o já citado “Gertie the Dinosaur”, de 1914. Antes desse, teve uma curta que adaptou “Little Nemo”, em 1911.

Décadas depois, a arte de McCay continua sendo reverenciada. Pode ser uma homenagem em uma animação do japonês Osamu Tezuka, em dois álbuns do francês Moebius ou em páginas de HQs como “Sandman”, de Neil Gaiman, ou “Promethea”, de Alan Moore.

Tezuka, Moebius, Gaiman e Moore são brilhantes e fãs de Winsor McCay. Fico feliz de ter ao menos uma coisa em comum com eles.

ps – Este post é o 14º de uma série chamada “Quadrinistas Eternos”. Na próxima quinta será a vez do brasileiro J. Carlos. Já publicados:

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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