Na primeira vez em que fui escrever sobre o trabalho da britânica Posy Simmonds, tive alguma dificuldade. Minha dúvida era: eu poderia dizer que sua graphic novel “Gemma Bovery” era um misto de história em quadrinhos com literatura em prosa?

Isso foi na década passada, em uma reportagem para a “Folha de S.Paulo”. E a razão da minha dúvida era o fato de que eu nunca havia lido uma graphic novel naquele formato híbrido.

Tanto “Gemma Bovery” quanto em outros livros de Posy Simmonds, como os inéditos no Brasil “Tamara Drewe” e “Cassandra Darke”, os quadrinhos não são a única maneira de contar a história. Há momentos em que a narrativa “esquece” as imagens, e a trama é descrita em prosa.

Cena de “Tamara Drewe”

Não se trata de mera brincadeira da talentosa Posy Simmonds, nascida Rosemary Elizabeth Simmonds em Berkshire, Inglaterra, em 1945. Porque não é só na forma que sua obra se aproxima da literatura, mas no conteúdo também: tanto nos temas como nas personagens.

O brilhante “Tamara Drewe” se passa em um retiro de escritores. Artesãos das palavras vão lá para terem paz e isolamento enquanto escrevem suas próximas obras. Esse sossego é abalado quando uma linda repórter de celebridades se muda para a vizinhança.

Em meio a bloqueios criativos (o maior medo de todo escritor) e prazos que se aproximam (o segundo maior medo de todo escritor), o que a história aborda é um drama adulto e intrigante, com homens e mulheres tendo de lidar com seus relacionamentos, inseguranças, amores, paixões e desejos. A vida adulta não é para principiantes.

Cena de “Gemma Bovery”

“Gemma Bovery” é uma homenagem direta a “Madame Bovary”, lançado em 1857 por Gustave Flaubert. Não só pelos nomes dos originais – Charles e Emma Bovary, do romance em prosa, dão lugar a Charlie e Gemma Bovery.

Os nomes podem dar a impressão de que se trata de uma adaptação, mas não é o caso. O livro de Simmonds começa com Gemma já morta. Um vizinho descobre seus diários e os furta para tentar entender sua morte.

É nos comentários do vizinho que “Gemma” aborda “Madame Bovary”: ele recorre ao clássico da literatura mundial para entender a infelicidade no casamento e o turbilhão de sentimentos de sua finada amiga.

Assim como em “Tamara Drewe”, “Gemma Bovery” tem a literatura como pano de fundo. O que temos o prazer de ler é uma obra que mira o sentimento, a emoção e a imprevisibilidade dessa criatura tão complexa que é o ser humano.

Para fechar, uma curiosidade: tanto “Tamara Drewe” como “Gemma Bovery” viraram filmes com a mesma atriz vivendo a protagonista – e ela se chama Gemma, ainda por cima.

Gemma Arterton como Tamara Drewe

Gemma Arterton foi a Tamara no filme de Stephen Frears lançado em 2010 e a Gemma Bovery no longa da luxemburguesa Anne Fontaine, que estreou quatro anos depois.

ps – Este post encerra a primeira leva de uma série chamada “Quadrinistas Maravilhosos“. Por três semanas, comentei o trabalho de 15 grandes artistas que produzem, com maestria, HQs hoje em dia.

Os outros quadrinistas que abordei foram:

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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