É duro escrever sobre uma artista da qual você só leu uma obra, mas não dá para negar: Riyoko Ikeda merece. Ela deu uma nova cara aos mangás nos anos 70 e está na ativa até hoje. Não é para qualquer um.

Nascida na metrópole japonesa Osaka em 1947, Riyoko Ikeda estreou nos quadrinhos em 1967, aos 20. Sua grande obra veio cinco anos depois: “ベルサイユのばら” – “Rosa de Versalhes” em português, lançada em cinco volumes pela editora JBC.

O que esta obra tinha de tão diferente? Primeiro, era uma artista mulher, em um universo em que os homens eram maioria – e mais bem tratados.

Em entrevista concedida ao jornal italiano “La Repubblica” no ano passado, e traduzida pelo ótimo Shoujo Café, Riyoko Ikeda conta como foi fechar contrato com seu editor:

“Ele me disse claramente que me pagaria metade do que um autor de homem ganhava. Eu reclamei e ele me explicou abertamente que ele faria isso porque se um de seus autores decidisse iniciar uma família, ele teria que sustentar sua esposa. Já se eu me casasse, meu marido iria pensar em mim.”

Esses argumentos. Esses comentários. Mas ela foi em frente: uma mangaká com uma história para contar. Não só isso: uma trama em que as duas protagonistas eram mulheres:

– a rainha Maria Antonieta, casada com o rei Luís 16º, o monarca que comandou a França até a Revolução Francesa;

– e Oscar François de Jarjayes, uma personagem ficcional que teria sido contemporânea de Maria Antonieta. Seu pai, um militar que só havia tido meninas, queria desesperadamente um filho. Quando ela nasceu, batizou-a com nome masculino, vestia-a com roupas de homem e a criou como um homem destinado a se destacar na carreira militar.

Um pequeno resumo de “Rosa de Versalhes”: é um mangá que costura romance e drama para mostrar os anos que antecedem a Revolução Francesa. O foco está na rainha Maria Antonieta e na Oscar, que apesar de ser uma brilhante militar, sofre preconceito justamente por ser mulher (o que suas roupas não tentam esconder).

Uma HQ no início dos anos 70 (seus capítulos saíram de 1972 a 73) em que a protagonista principal é uma mulher obrigada a se vestir e agir como homem… Percebe o que aconteceu aqui?  Riyoko Ikeda levou (segundo ela própria) ideias feministas com as quais estava tendo contato para um mangá.

Sim, é um mangá de romance e aventura, mas, mais do que isso: provoca reflexão sobre o papel e as obrigações das mulheres, o machismo, as imposições da família (em particular) e da sociedade (em geral)… Não sei quanto a você, mas, para mim, ainda são temas atuais.

“Naquela época, no meu país, as meninas tinham de ser educadas e gentis. Eu não queria dar outras lições além de respeitar a própria essência, expressar a nossa personalidade”, diz ela na mesma entrevista.

Oscar é o oposto de uma princesa de contos de fadas. Desafiadora, corajosa, lutadora, coronel que comanda seu batalhão na linha de frente, uma mulher com desejos amorosos e sexuais dentro de uma sociedade evidentemente opressora – basta ver a educação que ela teve.

De boas intenções o mercado da arte está cheio, e estes temas complexos poderiam ter sido embalados em uma HQ ruim ou chata. Mas não é o caso.

Riyoko Ikeda é ótima narradora e coloca seu traço elegante e preciso a serviço do roteiro. Há romance, aventura e drama dosados com um talento acima da média. Não à toa, fez tanto sucesso. “Rosa de Versalhes” já vendeu mais de 15 milhões de exemplares mundo afora e foi adaptada para animê, musical e cinema – “Lady Oscar”, dirigido pelo francês Jacques Demy e lançado em 1979.

Além de todas essas virtudes, o mangá ainda traz pequenas “aulas” sobre a Revolução Francesa. A HQ é baseada no livro “Marie Antoinette: The Portrait of an Average Woman”, do escritor austríaco Stefan Zweig – o mesmo que morou em Petrópolis (RJ) e escreveu “Brasil, País do Futuro”. Para quem se interessa por História, abre o apetite para livros e documentários sobre o período – e sobre Maria Antonieta.

“Rosa de Versalhes” (também conhecida como “Lady Oscar”) é categorizada como shoujo – mangá voltado para o público feminino. Acredito que seja uma das duas maiores obras da categoria, ao lado de “A Princesa e o Cavaleiro”, lançado por Osamu Tezuka (sempre ele!) em 1956.

O fato de ser voltado para mulheres significa que não é indicado para homens? De jeito nenhum. Especialmente se você gosta de ótimas obras – que, para mim, é o que importa.

ps: Este post é o sétimo de uma série chamada “Quadrinistas Maravilhosos”. A ideia é publicar 15 textos em três semanas. Segunda é a vez de Gerry Trudeau.

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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