Algo que sempre me perturbou na infância era saber que havia no mundo um país com o Apartheid. Se você é muito jovem, vou te poupar de uma ida ao Google: trata-se do regime de segregação racial que a minoria branca impôs à maioria negra na África do Sul, uma monstruosidade que durou de 1948 a 1994.

Como seria a vida dos negros nesse período? E, uma vez que acabou, como os sul-africanos vivem? Por certo, décadas com essa monstruosidade deixaram raízes.

Há várias maneiras de ver como é a África do Sul no período pós-apartheid. Visitando, ouvindo locais, lendo estudos acadêmicos, vendo documentários… e a Arte, claro.

Vou comentar hoje sobre dois artistas que criam, atualmente, meu quadrinho africano favorito: Rico Schacherl e Stephen Francis, os talentos por trás de “Madam and Eve” (em tradução livre, “A Madame e Eva”).

Antes de continuar, um pedido de desculpas para quem não fala inglês: não há tradução desta tira. Vou falar dela mesmo assim por causa de sua qualidade e por achar interessante que tenhamos contato com obras que não conhecemos.

Rico Schacherl e Setephen Francis não perdem o pique: esta tira já mostra seus personagens em isolamento social, jogando pôquer online

O princípio da tira é simples: o cotidiano de uma rica senhora branca sul-africana (a “madame” do título) e sua faxineira negra (Eve).

 “Madam and Eve” é uma tira diária, muito engraçada e crítica. O ponto de partida pode ser simples, mas a execução não é. O roteiro (sempre inteligente) aborda temas que vão dos problemas em viver em um país que não tem infraestrutura adequada ao preconceito diário que a pessoa não sabe que pratica.

Sobre o preconceito: há algumas passagens hilárias que mostram pesadelos que a Madame tem do que a faxineira faz em sua casa quando ela não está – será que está dando uma festa? Rouba coisas escondidas? Bebe meu uísque?

O próprio título mostra por onde a tira caminha: a branca tem nome (Gwen Anderson), mas o que importa é seu posto de “madame”. Mulher rica que nunca precisou trabalhar, é inspirada na sogra de um dos artistas (por acaso, também chamada Gwen – não sei se o rapaz é corajoso ou burro demais, mas isso é com ele).

Pode vibrar, torcida sul-africana: este quadrinhos é um golaço

Eve, por outro lado, é inteligente, irônica, engraçada. E sofre como qualquer pessoa das classes mais pobres em qualquer lugar do mundo: no trânsito, com a precariedade das casas e hospitais etc. E, muito importante ressaltar, com o descaso que os mais ricos têm para com eles.

 “Madam and Eve” surgiu em 1992 (durante o apartheid, portanto), criada por três artistas: o sul-africano, nascido na Áustria, Rico Schacherl (roteiro e arte); o sul-africano Harry Dugmore (roteiro); e Stephen Francis (roteiro), norte-americano radicado no país desde 1988.

Dugmore deixou a equipe criativa no início da década passada, mas Rico e Francis continuam produzindo a tira diariamente. Para quem mora fora da África do Sul (e fala inglês), felizmente o site é atualizado com frequência.

A série foi adaptada para a TV no início da década passada – foram quatro temporadas com episódios de 30 minutos. Infelizmente, achei poucas imagens dessa série no YouTube:

A sociedade sul-africana está sendo representada ali diariamente nesta tira. Mais do que isso, talvez: ela está sendo jogada na cara do leitor, com uma legenda: “você é assim e não percebe”; “você trata a sua faxineira assim”; “viu isso? E aí, você é racista ou não?”.

Ou seja: há crítica social, humor, inteligência e reflexão. É preciso mais?

ps: Este post é o quinto de uma série chamada “Quadrinistas Maravilhosos”. A ideia é publicar 15 textos em três semanas. Amanhã é a vez do norueguês Jason.

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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