Impossível agradar a todos.

Dito isso, fazer listas é irresistível, e pensei em selecionar cinco sugestões de séries criadas a partir de quadrinhos para deixar aqui como sugestão. Não consegui, e acabei selecionando seis.

Tentei pegar um material eclético – seria fácil fazer uma lista só com adaptações de mangás e outra só de super-heróis, por exemplo.

Juntando todas as temporadas disponíveis das séries, chegamos a mais de 160 episódios (168, para ser mais preciso). Se maratonar, claro, acaba rápido demais, mas uma média de 2 episódios diários garante quase três meses com diversão na TV.

1 – Legion (FX e Netflix)

“Legion” parece uma série de super-heróis: é inspirado em um personagem da Marvel e a história se passa em um ambiente repleto de mutantes. O protagonista (David, conhecido como Legião nos quadrinhos), inclusive, é filho do Professor Xavier, fundador e líder dos X-Men. Maaas… será que é uma série de super-heróis?

David Haller tem um problema psiquiátrico, por isso está sendo tratado em uma clínica. Ou não: ele pode ser um mutante com poderes que podem confundir as pessoas a seu redor, que acham que ele deve ser tratado. Ou não.

Criada por Noah Hawley (de “Bones” e “Fargo”), a série “Legion” é, para mim, uma aula de como fazer televisão. Um roteiro incrível, nada convencional, é embalado por cenas visualmente impecáveis, esculpidas com tanto requinte que parecem ter sido pensadas para o cinema.

Lá pelo final da primeira temporada, três enredos acontecem ao mesmo tempo, mas narrados de maneiras esteticamente diferentes – uma delas, uma linda homenagem ao cinema mudo. É uma cena tão rica que dá vontade de voltar a ela depois que o episódio acabou e a rever – inclusive eu fiz isso várias vezes, para ser sincero.

O roteiro é inovador, autêntico, surpreendente… E nada mastigado. O espectador tem de interpretar muita coisa, o que só desperta o interesse.

Pode ser classificado como uma série de super-herói? Se sim, não se parece em nada com nenhuma outra do gênero, como as ótimas “Demolidor” e “Jessica Jones”. Vale a pena dar uma chance aos dois primeiros episódios – ver só o primeiro vai te deixar com cara de ponto de interrogação.         

2 – The Tick (Amazon Video Prime)

Ele é forte, invulnerável, defende a Bondade, a Honra e a Justiça… e meio que parece um inseto. Seu nome não costuma ser traduzido no Brasil, mas seria OK chamá-lo de… Carrapato.

Criado pelo norte-americano Ben Edlund, Tick surgiu como uma paródia dos super-heróis, publicado de forma tão independente que sequer tinha uma editora – era a mascote de uma newsletter de uma loja americana de quadrinhos, a New England Comics. Qual era a chance de ele ficar famoso?

Não só ficou como rendeu três séries de TV: uma animada, na Fox Kids (de 1994 a 96), e duas live action (com atores): uma da Fox, em 2001, e esta que estou recomendando, da Amazon Prime Video, cujas duas temporadas foram ao ar de 2016 a 2019.

A grande sacada da série é sua pegada: humor. Ela ri o tempo todo do gênero dos super-heróis e, especialmente, de si mesma. O seu equivalente ao Superman (Tick) é 100% puro de coração, mas ingênuo, quase bobo. Escracho (Overkill, no original) é um pastiche do Batman: solitário, violento e radical de uma maneira tão caricatural que fica hilário. E o protagonista, o pequeno, traumatizado, inseguro e inteligente Arthur…

Toda a produção é bem feita. Os personagens são para lá de originais. Você esperaria ver um cachorro com superpoderes que foi super-herói, escreveu uma autobiografia e agora está em tour divulgando seu livro? Ou um submarino inteligente que tem uma alma romântica e nostálgica? Pois é: em “Tick”, eles existem.

3 – Death Note (Netflix)

Eu preciso dizer que trapaceei aqui. Não assisti à série inteira, apenas ao início. Mas, como ela adapta fielmente o roteiro do mangá de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata (do qual sou fã), me sinto livre para recomendar esta animação.

“Death Note” é uma bela história de terror. Começa assim: uma espécie de “demônio da morte” deixa cair um misterioso caderno na Terra. O tal “death note” tem um funcionamento mágico infalível: se você escrever o nome de alguém nele, a pessoa morre. O usuário do tal caderno pode até determinar a razão e a hora do óbito, desde que siga algumas regras básicas.

Ou seja, o portador do caderno fica com os poderes de um deus.

Mas, e aí? Será que ele vai matar alguém? Se sim, quem? Pessoas de seu círculo próximo, como os bullies e vizinhos folgados? Rivais, como colegas profissionais? Criminosos? Alvos de inveja? A pessoa que sair matando é necessariamente má ou, se estiver agindo ao lado de algum governo ou autoridade, pode ser considerada uma heroína?

Ela saberá a hora de parar?

4 – Lúcifer (Netflix)

Lúcifer é um personagem e tanto. Não falo do que aparece na Bíblia, mas do inspirado nele e que surgiu na maravilhosa HQ “Sandman”, de Neil Gaiman.

Lúcifer era um coadjuvante quando apareceu. O mais lindo e poderoso dos anjos, condenado a liderar o Inferno após comandar uma rebelião fracassada. Mais tarde, ele abre mão de seu domínio e vai para Los Angeles, onde abre uma boate e dá um tempo antes de decidir o que faz da vida.

“Sandman” fez um estrondoso sucesso, atingindo um enorme público fora do habituado a ler quadrinhos. Diante disso, a DC Comics quis investir em personagens retirados da série. Assim, Lúcifer estrelou uma minissérie interessante, a princípio, e depois uma longa revista mensal. Que era muito ruim, infelizmente.

Mesmo assim, o personagem existia. E, em 2016, ele migrou para a TV estrelando uma série que mistura humor e fantasia. Os criadores sabiamente ignoraram tudo da fraca revista que levava seu nome e mantiveram o essencial: ele abandonou o Inferno e agora toca uma boate na boa e agitada Los Angeles. E é lindo, carismático e negocia favores em troca do que quer que lhe interesse.

A série é estrelada pelo britânico Tom Ellis, que conseguiu transformar um canalha (ele é o Lúcifer, pombas!) em uma criatura egocêntrica, amoral e absolutamente adorável. Os coadjuvantes a seu redor mantêm o nível e só aumentam um universo hilário e cativante: um ex-casal de policiais que trabalha com homicídios, uma psicóloga, uma cientista forense…

Se você deve dar uma chance? Como diria o protagonista, o que há de errado em dizer sim a uma tentação de vez em quando?

5 – Mônica Toy (YouTube e Netflix)

Minha sugestão nacional é voltada para o público infantil. E é hilária.

A Turma da Mônica dispensa apresentações, então podemos pular. “Mônica Toy” é composta por histórias curtas, de menos de um minuto, sem falas. Os personagens mais conhecidos estão lá: Mônica, Cascão, Cebolinha e Magali, mas também há espaço para Penadinho, Mingau, Franjinha…

O que torna essa série animada tão boa é a sua qualidade. Tanto nos roteiros – apesar de curtos, imprevisíveis, anárquicos e hilários – quanto no visual, é um deleite.

Os episódios estão disponíveis no canal da Turma da Mônica no YouTube.

Não é imprescindível, mas há um “plus”: tente, se possível, assistir ao lado de uma criança pequena. As risadas dela serão contagiantes.

6 – Watchmen (HBO)

Deixei para último uma das séries mais impactantes que vi na TV nos últimos tempos, independentemente do gênero.

A história original de “Watchmen” foi publicada pela DC Comics em 12 números, de 1986 a 87. Foi um marco nos quadrinhos norte-americanos porque descontrói o gênero dos super-heróis. Para quem nunca leu (ou viu) uma aventura de Superman, Mulher-Maravilha ou Batman até então, é difícil imaginar o tamanho da ruptura.

Alan Moore (roteiro) e Dave Gibbons (arte) pegaram toda a ingenuidade e simplicidade das histórias de super-heróis até então e as destruíram impiedosamente. Eles eram deuses: perfeitos nos atos e melhores em tudo que os mortais – não havia um que não fosse lindíssimo, inteligentíssimo ou fortíssimo. Tudo tinha de ser no superlativo. O que os diferenciava dos colegas no Monte Olimpo era, basicamente, as identidades secretas, os uniformes e o fato de viverem entre humanos.

Assim, imagine o choque do leitor ao ver, na primeira edição de “Watchmen”, um “super-herói” estuprar uma colega. E, nos números seguintes, é ladeira abaixo, com direito a assassinatos de grávidas e outras atrocidades. Teve um até que broxou – assim, parece mais humano do que super.

Um filme, em 2009, adaptou respeitosamente a HQ. Sim, teve mudanças, e entendo quem não gostou. Mas é uma adaptação no sentido clássico: respeitou a trama e os personagens originais.

Já esta série da HBO, criada por Damon Lindelof, é uma recriação. A história é uma continuação da HQ, ambientada 34 anos depois da trama original e estrelada não só por alguns dos personagens originais, mas também por novos, criados especialmente para esta obra.

A grande sacada (enorme, eu diria) é que cada novo personagem, e você só percebe isso com o desenrolar da série, é uma homenagem (ou recriação) dos protagonistas originais. Além disso, as inúmeras tramas paralelas também remetem, em vários níveis, ao espetacular roteiro original de Alan Moore.

É difícil dizer mais sem dar spoiler. Mas posso acrescentar que quem não leu a HQ original vai acompanhar a série sem problemas.

“Watchmen”, a HQ, recebeu muitos prêmios. “Watchmen”, a série, já começou a receber os seus, nesta temporada de premiações interrompida pela pandemia: melhor direção em série de drama do Directors Guild Award, entregue pelo Sindicato de Diretores; melhor série nova do WGA, o prêmio do Sindicato dos Roteiristas; dois prêmios do Critics’ Choice Television Awards (melhor atriz e melhor atriz coadjuvante)…

Eu apostaria que ainda tem mais troféu pintando aí.

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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