Está difícil fugir dos pensamentos sobre a pandemia e a quarentena… Isso não é novidade para ninguém, e algumas editoras de quadrinhos disponibilizaram, mundo afora, um considerável acervo online e grátis para nós, apreciadores da nona arte.

Selecionei 12 exemplos, tentando apresentar gêneros e opções bem diferentes entre si. Posso ter comido bola em algum, mas acho que todos foram colocados no ar de graça por causa da quarentena.

Alguns, infelizmente, não estão em português – e talvez um pouco da graça esteja aí. Afinal, é uma oportunidade de conhecermos um pouco do que está sendo produzido em quadrinhos na Espanha e na França, por exemplo.

Evitei, neste momento, quadrinhos criados originalmente para a Web (os webcomix) – que ficam para outro dia, tenho muito interesse neles.

1 – Mangás em português

Peguei esta dica no Universo HQ: a editora Panini disponibilizou alguns números de seu acervo no Kindle, no Kobo Rakuten e no Google Play. Entre os títulos disponíveis, estão edições de “One Piece”, “Tokyo Ghoul” e “Bleach”.

“One Piece” é o mangá mais vendido da história e está no “Guinness – O Livro dos Recordes”

2 e 3 – Mangás da Kodansha e da Shogakukan em inglês

A Kodansha e a Shogakukan são as maiores editoras japonesas de quadrinhos.

Os sites abaixo trazem os primeiros capítulos de alguns de seus trabalhos (ou seja, não se trata da obra completa), mas estão em inglês:

Kodansha: https://kodanshacomics.com/reader/

Entre as obras disponíveis, “Tropic of the Sea”, de Satoshi Kon, me parece particularmente linda. Além de mangaká (seu “Opus” foi publicado no Brasil pela Panini), Kon é diretor de cinema e, entre suas obras, dirigiu a animação “Paprika”, adaptando o mangá de Yasutaka Tsutsui.

Doraemon foi eleito “embaixador especial” dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020 (que acontecerão em 2021)

Shogakukan: https://shogakukan.asia/category/books/manga-comics/

Há vários previews, mas me interessei por um personagem específico: Doraemon, série infantil de humor criada em 1969 que é praticamente um patrimônio japonês – ele até deu uma passadinha no Rio, na Cerimônia de Encerramento dos Jogos Olímpicos, para promover a edição de Tóquio. A HQ é assinada por Fujiko Fujio, pseudônimo compartilhado por uma dupla de artistas: Hiroshi Fujimoto e Motoo Abik.

Também acho esta legenda desnecessária

4 e 5 – Turma da Mônica e Senninha

Também peguei essas do Universo HQ:  a Mauricio de Sousa Produções disponibilizou, por 30 dias, as revistas históricas da Turma da Mônica para leitura digital gratuita no aplicativo de streaming Banca da Mônica.

Ainda entre as HQs nacionais, o Social Comics, em parceria com o Instituto Ayrton Senna, liberou todas as revistas do personagem Senninha (mais de 110 números) de forma gratuita na plataforma.

Difícil achar uma imagem deste cidadão em que ele não esteja a mil por hora

6 a 8 – Em francês: Asterix e as editoras Delcourt e Dargaud

Essas duas primeiras dicas francófonas eu tirei do ótimo blog As Leituras do Pedro – que não é meu, mas de um xará português que sabe tudo de bandas desenhadas (como os portugueses chamam os quadrinhos).

A Delcourt é uma editora criada nos anos 80 e que publica trabalhos bem interessantes. Não são apenas franceses, mas norte-americanos, mangás e outras obras europeias.

É preciso fazer um cadastro para ver o que eles colocaram no ar de graça neste tempo de quarentena.

Gauleses irredutíveis colocando o Covid para correr

Asterix… Este dispensa apresentações. É meu personagem favorito dos quadrinhos europeus (ao lado do Corto Maltese), embora, como gostam de me lembrar meus amigos, eu me pareça muito mais fisicamente com o Obelix.

Enfim, eles estão disponibilizando algumas histórias curtas criadas pelos autores originais, René Goscinny e Albert Uderzo (há outros dois artistas por trás das novas aventuras, Jean-Yves Ferri e Didier Conrad).

Alguém aí mencionou quadrinhos franceses?

Também é possível ver páginas (infelizmente, não histórias inteiras) de trabalhos menos famosos de Goscinny e Uderzo: Oumpah-Pah (publicado no Brasil como Umpa-Pá), Jehan Pistolet, Luc Junior e Benjamin e Benjamine.

Uma terceira dica para quem entende francês é a editora Dargaud. Eles colocaram 12 álbuns online e grátis, dois quais destaco três:

“Blake et Motimer – La Marque Jaune” (“Blake e Mortimer – A Marca Amarela”), um dos melhores álbuns do grande quadrinista belga Edgar P. Jacobs (1904-87). Há anos, em Bruxelas, um prédio estampa, em tamanho gigantesco, a misteriosa marca que dá título ao livro.

“Rubrique-À-Brac – Tome 1”, o primeiro volume com as histórias curtas, engraçadas e adultas do francês Gotlib (1934-2016).

“Boule & Bill – Um Amour de Cocker”, de Verron. Série infantil divertida, engraçada e belamente ilustrada.

A “marca amarela” em Bruxelas

9 a 11 – Em espanhol: El Víbora, Norma e Astiberri

“El Víbora” foi uma revista publicada de 1979 a 2005 que levou um tipo de diferente de quadrinhos para o leitor espanhol: obras mais alternativas, autorais, que lembram um pouco os comix underground dos Estados Unidos – o jornal “El País” diz que seus autores, como Nazario, Max, Mediavilla e Gallardo, criam “cómic contracultural”.

Pois a La Cúpula, a editora da “Víbora”, resolveu disponibilizar, às quartas, edições com HQs já publicadas na revista. Nem todas as histórias são de autores espanhóis – há trabalhos também de gente como Robert Crumb (nome maior dos quadrinhos underground norte-americanos) e Peter Bagge, por exemplo.

Se você é um sobrevivente e gosta de quadrinhos adultos, esta “Víbora” é para você

Esta revista online está sendo publicada com o nome “El Víbora Para Supervivientes” (“‘El Víbora’ para sobreviventes”, em tradução livre). Da ideia de lançar edições semanais ao novo título, ótima sacada.

Já a Astiberri vai por outro caminho. É uma editora espanhola mais recente (publicou seu primeiro álbum em 2002) e está lançando digitalmente histórias contemporâneas. Neste endereço, há um livro de quase 200 páginas: “Lecturas a domicilio. Libro verde” (“Leituras em domicílio. Livro Verde”, em tradução livre).

Este volume reúne histórias curtas que sejam inéditas ou que tenham sido publicadas em blogs ou fanzines, cedidos pelos autores justamente para esta “edição de emergência” para a quarentena. Os quadrinistas cederam tanto material que a editora programou mais três volumes ainda para abril.

O novo trabalho de Jaime Martín

A Norma, uma das mais tradicionais e interessantes editoras espanholas, está disponibilizando previews de muitos álbuns. Dois, em particular, me chamaram a atenção:

– “Siempre tendremos 20 años”, de Jaime Martín. Só um álbum de Martín saiu no Brasil: “Sangue de Bairro”, lançado em 1991 na infelizmente finada “Grandes Aventuras Animal”. Autor talentoso e interessante, voltado para o público adulto.

– “Kurosawa. El samurái caído”, de Víctor Santos. Uma curta biografia (menos de 90 páginas) de um dos maiores cineastas do mundo. No mínimo, acho que vai me dar vontade de rever alguns filmes dele 🙂 .

12 – Marvel

Assim como fez com seus mangás (citados lá no primeiro item): a editora Panini disponibilizou alguns exemplares da Marvel no Kindle, no Kobo Rakuten e no Google Play. 

Há histórias de Wolverine, Deadpool e Hulk, entre outros, mas o que eu recomendo é o ótimo primeiro volume de “Surpreendentes X-Men”, de Joss Whedon e John Cassaday. Baita série.

A Marvel ainda oferece por um mês, em inglês, um acervo com opções interessantes: “Avengers: Kree/Skrull War” (lançada originalmente em 1971 e 72; publicada no Brasil como “Vingadores – A Guerra Kree-Skrull), “X-Men: Dark Phoenix Saga” (de 1976 a 77; no Brasil, “A Saga da Fênix Negra”) e mais dez.

“Surpreendentes X-Men”: bem antes de ser chamado para consertar as bobagens de Zack Snyder no cinema (“Martha…”), Joss Whedon escreveu esta ótima fase dos mutantes

?!?! – Pô, DC Comics…

A DC Comics não disponibilizou nada online que esteja acessível no Brasil. Tentei entrar no site oficial, e tudo que consegui foi a resposta “Desculpe, este serviço só está disponível nos EUA. Anunciaremos quando estiver disponível na sua região.”. Também não vi nada da DC no material disponibilizado pela Panini.

Poxa, DC, além de brindar seus fãs com a patacoada do Momento Martha no péssimo “Batman vs  Superman”, você ainda não quer compartilhar um material (por menor que seja) do seu ótimo acervo?

– Martha…
– Sério mesmo?
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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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