Este post é uma continuação do de ontem, quando tentei escolher meus três livros favoritos sobre quadrinhos… e falhei miseravelmente, pois minha lista ficou com seis.

Vamos aos três finais:

4 – “Desvendando os Quadrinhos”, de Scott McCloud

Uma editora que eu não conhecia lançou um livro sobre quadrinhos de um autor que eu também nunca tinha ouvido falar. Até a capa era feia. Comprei pelo tema… e li aquele que, até hoje, é o melhor livro sobre quadrinhos que já li.

(Muita gente que respeito, inclusive o próprio McCloud, prefere “Quadrinhos e Arte Sequencial”, de Will Einser. Compreensível.)

“Desvendando os Quadrinhos” é um livro em quadrinhos, o que permite ao criativo McCloud misturar forma e conteúdo com maestria. Em nove capítulos, ele faz uma abordagem impressionante do tema, indo da definição do que é uma história em quadrinhos (já reparou como é difícil dizer exatamente o que é uma HQ sem esbarrar em outras formas de arte?) a temas abstratos como as diferenças entre figura, linguagem e realidade (com 116 exemplos!).

As reflexões de McCloud não ficam restritas ao que é publicado nos Estados Unidos: há, por exemplo, um questionamento bem interessante sobre a diferença dos ritmos de narrativa de quadrinhos norte-americanos, europeus (as BDs) e os mangás – e que pode ser aplicado a quadrinhos brasileiros, africanos…

A linguagem dele, bem como sua arte, impede que o livro fique chato, por mais complexos que sejam os temas (e, acredite, são complexos).

Um capítulo, em particular, me chama muito a atenção, e volto a ele de vez em quando. McCloud versa sobre os objetivos da Arte e do Artista, indo muito além dos quadrinhos: ele está falando, ao mesmo tempo, de música, cinema, literatura etc.

O que o Artista precisa para criar? Quer passar a uma ideia específica? Ou explorar a forma desta arte, revolucionando sua estrutura? Os objetivos de Orson Welles e Pablo Picasso eram os mesmos dos de Frank Capra e Charles Dickens? (Te falei que alguns capítulos eram complexos…)

“Desvendando” tem duas continuações, também excelentes: “Desenhando Quadrinhos” e “Reinventando os Quadrinhos”.

5 – “Homens do Amanhã

O norte-americano Gerard Jones tem uma longa carreira de roteirista de quadrinhos – escreveu, por exemplo, as revistas mensais da Liga da Justiça e do Lanterna Verde. Com muitos anos de carreira nas costas, frequentou convenções e conheceu (e entrevistou) aristas, editores e fãs.

E resolveu escrever um livro de não-ficção sobre um tema e tanto: a origem do gênero dos super-heróis, de uma época tão distante que nem se sonhava que haveria uma Era Marvel do Cinema.

Atenção ao spoiler: Gerard Jones conseguiu. “Homens do Amanhã” é um livro com informações, curiosidades, entrevistas, detalhes… E que te dá uma vontade danada de ler as histórias originais que deram origem ao que os americanos chamam de “Era de Ouro dos Quadrinhos”.

6 – “As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay

Este romance é quase um complemento de “Homens do Amanhã”. O norte-americano Michael Chabon conta a história de dois primos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Um deles foge do nazismo na Europa e vai para Nova York, onde o outro vive.

 “Superman” acabara de ser publicado e surge a “Era de Ouro dos Quadrinhos”. Quadrinistas iniciantes e talentosos, os primos criam seu personagem (o maravilhoso Escapista) e vivenciam tudo o a que tem direito nesses anos de semiamadorismo da indústria das HQs: problemas com editores, seriados de rádio, um divertido encontro com Stan Lee…

A origem do gênero dos super-heróis é o pano de fundo. O romance vale pela qualidade da escrita de Chabon: as situações que cria, seus encantadores personagens, as divertidas reviravoltas… Um livro para só emprestar se tiver uma cópia reserva – alguém aí sabe onde o meu foi parar?

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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