Leio e coleciono quadrinhos há muito tempo. Tento ir atrás de um pouco de tudo: gêneros diferentes, formatos inusitados, HQs representando países que não conheço. E, filho de angolano que sou, tenho um carinho especial por ler e colecionar quadrinhos africanos.

Ou não. Afinal, quando foi a última vez em que você viu um quadrinho africano ser publicado no Brasil?

Os dois primeiros volumes ótimo “Aya de Yopougon”, da marfinense Marguerite Abouet (em parceria com o francês Clément Oubrurie) saíram por aqui em 2009 e 2012 – faltaram as quatro edições finais, mas já foi um primeiro passo. Um trabalho infantil dela, “Akissi”, também saiu… em 2012.

Lembra de alguma HQ africana lançada no Brasil nos últimos dez anos?

Enfim, este pandêmico 2021 nos traz três possibilidades. Todas estão no Catarse, então dou o link para elas, bem como as descrições postas pela editora.

E tem mais a caminho: “Djeliya”, do senegalês Juni Ba, também vem por aí. No conjunto, uma bela e rara oportunidade de conhecer HQs da África.

O Pesadelo de Obi“, de Chino, Tenso Tenso e Ramón Esolo Ebalé (Guiné Equatorial)

“Num desconcertante discurso televisivo, o Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, afirmou que o país da África ocidental era um dos mais prósperos do mundo e com a maior renda per capita do continente. Diante da miséria e da violência em que a população vive, imposta por uma ditadura no poder desde 1979, três amigos entenderam que, se o Obiang estava caçoando dos guinéu-equatorianos, todos também poderiam rir do Presidente!
Bravamente, decidiram então criar uma graphic novel, a primeira da Guiné Equatorial.
Chino e Tenso Tenso (pseudônimo dos autores que desejam permanecer anônimos, por enquanto) ficaram responsáveis respectivamente pelo argumento e os diálogos. Os desenhos ficaram sob a responsabilidade de Ramón Esolo Ebalé (que também assina na imprensa internacional como Jamón y Queso).
Ebalé havia migrado para o Paraguai. Quando retornou para seu país em 2017, para renovar o passaporte, foi preso, sob falsas acusações. Ele ficou cerca de 7 meses na infame Black Beach. Tudo em retaliação ao quadrinho.
O artista só foi solto graças à pressão internacional. A mesma que conseguiu que seu passaporte fosse renovado, cerca de 2 meses depois. Foi a comoção de quadrinistas de todo o mundo, incluindo nomes de peso como o de Neil Gaiman, que libertou Ebalé.”

O Chamado de Mpoue“, de Blanche Lancezeur (França) e Martini Ngola (Camarões)

“A HQ traz a história do eminente professor Jacques Mékamgang, que apresenta os resultados de seu último trabalho no grande anfiteatro da Faculdade de Física dos Materiais de Lausanne. Diante de uma plateia de colegas de todo o mundo, ele fala com paixão sobre ligas metálicas com memória de forma. De repente, ele é tomado por um tremor e busca respirar abrindo a gola da camisa. O público se preocupa com pausas no fluxo de seu discurso. Enquanto os projetores são dirigidos para ele, o olhar febril de Jacques esquadrinhava a parte de trás do anfiteatro. Lá, no crepúsculo, por um momento, ele viu uma figura estranha com olhos vermelhos brilhantes olhando para ele. A criatura usa um grande casaco adornado com conchas, peles de leopardo e tecidos tradicionais africanos. Este é o Mpoue…. e qual a razão de seu surgimento?”

Ligeiro amargor (uma história do chá)“, de Elanni, Djaï e Koffi Roger N’Guessan (Costa do Marfim)

“Em Ligeiro Amargor: uma História do Chá vemos a evolução e transporte do produto que hoje está, literalmente, no gosto popular. E acompanhamos todos os conflitos, problemas e prazeres em torno de sua trajetória.
Em um quadrinho sensível e belamente ilustrado, passado e presente se mesclam e dialogam em um roteiro poderoso e imperdível. Para saborear a cada página, de preferência acompanhado de uma xícara do seu chá favorito.”

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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