Saudades de ficar ao ar livre

Eu estou de quarentena. Você também. Estamos todos trabalhando de casa e ganhamos algum tempo que costumamos gastar indo e vindo no trânsito. Muita coisa bem legal pode ser feita neste período, além de comer e dormir. Vou dar uma sugestão: por que não começar a ler uma tremenda série em quadrinhos? Listo aqui cinco.

Antes de tudo, vamos lá: o que é uma “tremenda” série em quadrinhos? É algo subjetivo, claro! Mas escolhi séries com início, meio e fim. Obras premiadas e que me marcaram de alguma maneira. E, importante!, que não sejam curtas. Afinal, você sabe quando a quarentena vai acabar? Eu também não.

Caso você leia só uma história por dia de cada saga listada abaixo, terá companhia por 200 dias. Eu sou guloso, ficaria com duas por dia – e teria “alimento” por cem dias…

As histórias de “Lobo Solitário” acontecem em um passado tão distante que seus personagens podiam andar ao ar livre sem medo de serem contaminados pelo Covid

1 – Lobo Solitário

Que quadrinho sensacional.

Lobo Solitário” foi lançado no Japão de 1970 a 1976 e narra a história de um guerreiro (talvez o melhor do Japão antigo) que vaga com seu filho, um pequeno e doce bebê.

São aventuras violentas e inteligentes, que envolvem espionagem, ardis e cinematográficas lutas de espada. Tendemos a chamar todos os quadrinhos que vêm do Japão de “mangá”, mas acredito que “gekiga” seria melhor: é uma obra mais realista e voltada para o público adulto.

Todas as histórias de “Lobo Solitário” foram escritas por Kazuo Koike e ilustradas por Goseki Kojima. É uma saga longa, reunida em 28 volumes – no Brasil, a Panini lançou a série completa e agora está publicando a “coleção definitiva”.

Para mim, um dos melhores da série: “Uma Volta pela Gália com Asterix”

2 – Asterix

Um dos ícones das BDs (bandas desenhadas, os quadrinhos europeus)! Os criadores são franceses: o escritor René Goscinny e o ilustrador Albert Uderzo. Eles criaram uma série de aventuras recheadas de muito humor que se passam quando a Gália (a França antiga) era ocupada pelo Império Romano. Nesse universo, há dois felizes gauleses que enfrentam os romanos: o baixinho Asterix e o grandalhão Obelix – e, sim, os nomes deles vêm de dois símbolos gráficos que também são usados em português: o asterisco (*) e o obelisco (†, que caiu em desuso por aqui).

Asterix e Obelix são corajosos, bem-humorados, leais, carinhosos… E suas histórias, imperdíveis. Goscinny e Uderzo produziram, juntos, 24 álbuns. Depois da morte do primeiro, Uderzo assumiu os enredos e criou mais 9 livros com aventuras inéditas (a última em 2005) – fora a edição especial “O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro”. Nem todas as aventuras de Uderzo, é verdade, mantêm o nível do roteiro de Goscinny, mas é sempre divertido ver Asterix e Obelix em ação.

Em 2013, uma dupla de corajosos e talentosos autores assumiu a tarefa de lançar novas aventuras: Jean-Yves Ferri e Didier Conrad. De lá para cá, criaram quatro: “Asterix entre os Pictos”, “O Papiro de César”, “Astérix e a Transitálica” (onde há um personagem chamado… Coronavírus – e que usa uma máscara, veja você) e “A Filha de Vercingétorix”.

Os direitos de Asterix no Brasil estão atualmente com a Panini – é a sétima editora a cuidar do baixinho irredutível por aqui.

Se você ler um álbum diariamente, é diversão por 39 dias. Se incluir a divertida homenagem “Asterix – Uderzo Visto por Seus Amigos”, chega a 40.

Tudo começou aqui, amigos

3 – Sandman

As editoras norte-americanas de quadrinhos de super-heróis (DC e Marvel) decidiram, nos anos 80, assumir mais riscos e tentar sair da mesmice em que suas histórias se encontravam.

O principal caminho da DC foi recrutar roteiristas do outro lado do Atlântico (Alan Moore, Neil Gaiman, Grant Morrison…), um momento conhecido como “invasão britânica”. Mas esses artistas, por melhores que fossem, não chegaram pegando as revistas mensais dos principais personagens da editora – Superman, Batman e Mulher-Maravilha, por exemplo.

Neil Gaiman, após trabalhos mais curtos (e ótimos), assumiu uma revista mensal a partir do número 1: “Sandman”. A série pegava o legado de três super-heróis anteriores da editora (Wesley Dodds, Garrett Sanford e Hector Hall assumiram esse nome) e deu um passo além.

Dizer que “deu um passo além” é um eufemismo. Primeiro, o nome do personagem não é Sandman, mas Sonho – Sandman é o título da revista, e apenas um personagem o chama assim em suas 75 edições. Mas muito mais do que isso: não é uma história de super-heróis. Portanto, sem essa de esperar ver homens e mulheres poderosos voando e salvando o mundo.

– O que vem ali é um sonho ou um pesadelo?
– É uma belíssima HQ, jovem padawan

“Sandman” é uma saga de fantasia e terror com início, meio e fim: foram 75 edições mensais, além de muitos números especiais. Essas edições tinham foco, quase sempre, em personagens coadjuvantes da série. Nem todas foram escritas por Gaiman, então citarei apenas as de autoria dele:

Esta série maravilhosa saiu no Brasil em várias edições (a minha favorita é da Conrad), e está sendo relançada agora pela Panini com o nome “Sandman: Edição Especial De 30 Anos”.

Se você ler uma história por dia (eu fiz isso no ano passado, não precisei de quarentena nenhuma para me dar esse presente), são três meses e quatro dias para se deleitar com a melhor obra de Neil Gaiman.

Pensa numa HQ histórica: este capítulo foi publicado em 1869

4 – As Aventuras de Nhô-Quim e Zé Caipora

O Brasil sempre teve ótimos quadrinistas. Mas sempre mesmo: no século 19, o ítalo-brasileiro Angelo Agostini já publicava histórias em série, um capítulo curto por vez. Tudo o que ele fazia era original: não havia uma linguagem consolidada de quadrinhos como há hoje.

Agostini podia inovar, inventar, fazer o que quisesse – em três capítulos que fazem parte do livro, inclusive, a sequência da leitura de uma história é de cima para baixo, e não da esquerda para a direita. (Sim, ele fez isso, mas a edição colocou na ordem de leitura a que estamos acostumados.)

O Senado brasileiro lançou, em 2002, uma impecável edição chamada “As Aventuras de Nhô-Quim e Zé Caipora: os primeiros quadrinhos brasileiros 1869-1883”. São 40 páginas de textos explicando quem foi Agostini e como aquelas séries foram publicadas, mais 160 páginas de quadrinhos. O livro está disponível, online e de graça, no site do Senado Federal.

O livro reúne duas séries diferentes: a do Nhô Quim, que começou a ser publicada em 1869, e a do Zé Caipora, que data de 1883.

Na minha opinião, este livro é uma aula interessante de como eram a sociedade e a arte brasileiras de um país antigo e praticamente desconhecido para nós, que sequer havia proclamado a República. Além de ser divertido, claro!

Como o ritmo de Agostini é diferente do nosso, vou reler o livro sem pressa: apenas dez páginas por dia… Portanto, 20 dias na companhia desses improváveis heróis do Brasil do século 19.

Você não gostaria de ver este pato bravo

5 – Disney: A Saga do Tio Patinhas e A Espada do Gelo

OK, trapaceei. Coloquei neste item duas histórias sem nenhuma ligação, de autores e editoras diferentes, com pouco em comum: são personagens Disney… e são excelentes!

A Saga do Tio Patinhas” foi lançada em 12 números na Dinamarca pela editora Egmont, mas escrita pelo norte-americano Don Rosa. Ela narra, como o título entrega, a biografia do homem mais rico do mundo de todos os tempos (mal aí, Bruce Wayne e Tony Stark, vocês nem chegam perto): o Tio Patinhas.

Don Rosa é um artista e tanto. Suas histórias exalam humor, aventura e drama; Patinhas acerta muito, mas comete erros, e tem qualidades e defeitos como qualquer homem. Perdão, como qualquer pato.

Há três edições desta saga no Brasil, todas da Abril: em 2003, saiu em dois números com o título “40 Anos da Revista Tio Patinhas – A Saga do Tio Patinhas”; em 2007, foi lançada em três partes com o título “A Saga do Tio Patinhas”; e ainda há um volume único, com capa dura e 384 páginas, de 2015.

Já “A Espada do Gelo” é uma série com apenas quatro aventuras estreladas por Mickey e Pateta. Escritas e ilustradas pelo italiano Massimo de Vita, foram lançadas pela editora Mondadori, também da Itália – os personagens Disney são licenciados e podem ser publicados por editoras diferentes sem que uma cronologia tenha influência na outra.

De Vita criou uma história de aventura e, sobretudo, amizade entre Mickey e Pateta e… habitantes de outra dimensão. Como eles quase nunca podem se ver (viagens interdimensionais não são lá muito fáceis), isso só aumenta o gosto doce que essas histórias deixam na boca.

Essas aventuras foram publicadas em edições separadas das revistas Disney no Brasil, mas reunidas no livro “Disney – A Espada de Gelo”, lançado pela Abril em 2016.

Isoladamente, “A Saga do Tio Patinhas” (12 capítulos na edição de 2003, 14 nas outras duas) e “A Espada de Gelo” seriam curtas demais para esta lista. Como trapaceei na cara dura, chegamos a 18 dias de histórias.

Não deve ser tão difícil achar uma HQ que te agrade…

Conclusão

Se você for paciente e ler apenas uma história diariamente, serão mais de seis meses bem acompanhado: 200 dias, para ser preciso. Eu chutaria que o isolamento já terá acabado.

Ou, se você quiser ler uma história do Sandman por dia e mais alguma outra, são 94 dias de duas belas leituras. Com as histórias do Neil Gaiman vão acabar antes, você terá 12 histórias que pode dividir por mais seis dias, completando cem dias de qualidade e diversão.

Espero que o isolamento já tenha acabado bem antes desses cem dias.

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

Quer falar comigo, mas não pelos comentários do post? OK! Meu e-mail é pedrocirne@gmail.com

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