Há alguns anos, viajei para Portugal. Eu estava criando um projeto chamado “Púrpura”, uma graphic novel que eu escrevi e que queria que fosse publicada com a participação de ao menos um artista de cada país lusófono. Achei que Lisboa seria um bom ponto de partida para este projeto levemente megalomaníaco.

Assim, passei por duas bedetecas (“gibiteca” em português de Portugal), a de Lisboa e a de Amadora, e me recomendaram que entrasse em contato com João Mascarenhas. Criador do personagem O Menino Triste, Mascarenhas escreve, ilustra, edita… E conhece todo mundo. É um poço de simpatia.

Entrei em contato com ele. No mesmo dia, Mascarenhas topou me encontrar para tomar um café. Eu queria pedir a ele uma ou duas dicas para ir atrás dos artistas lusófonos. Ele me deu mais de dez, ligando para pessoas na minha frente e as colocando em contato comigo. “Púrpura” foi publicado – consegui 16 artistas (!), e todos os países lusófonos foram representados (!!!) -, e devo muito ao esforço de Mascarenhas. De brinde, ainda ilustrou duas páginas da graphic novel (uma delas está logo abaixo).

Mascarenhas e eu viramos amigos e acabamos nos encontrando em festivais internacionais de quadrinhos, como o FIQ mineiro e o Festival de Amadora lusitano. Sou fã do seu trabalho, claro, e acho que uma conversa com ele sobre quadrinhos (de uma maneira geral) e HQs portuguesas (em particular) seria muito rica para o Hábito de Quadrinhos. Então, aqui está!

Como (e quando) você começou a ler bandas desenhadas? Quem eram os personagens (ou autores) que o atraiam?

A minha infância foi passada em Angola (até 1974). Assim que aprendi a ler, comecei a ler as revistas de BD que nos chegavam directamente do Brasil: O Pato Donald, Zé Carioca, Mickey, Almanaque do Tio Patinhas e ainda revistas da Ebal com o Super-Homem e outros super heróis. De Portugal continental chegavam-nos outras revistas: Mundo de Aventuras, sobretudo com BDs americanas, Falcão, com algumas histórias inglesas.

Mais tarde, por volta de finais dos anos 1960s, começaram a aparecer os primeiros álbuns, impressos em Portugal: Astérix, Humpá-pá, Tintin e BlueBerry.

Em relação às personagens gostava imenso do Zé Carioca, Peninha, Mandrake, Fantasma e o Major Alvega (Battler Britton).

Em que momento você decidiu que queria trabalhar com bandas desenhadas? Foi difícil para você conseguir publicar suas BDs?

Eu sempre gostei de desenhar. Mas apenas na adolescência me comecei a aventurar a fazer pequenas histórias de uma ou duas pranchas. Quando estava na Universidade de Coimbra (anos 1980), fui fazendo pequenas histórias de uma ou duas páginas, que ia publicando em revistas culturais de Coimbra. Depois de concluir a licenciatura em engenharia, mudei-me para Lisboa e continuei a desenhar, mas para mim mesmo, e para participar em alguns concursos, onde ganhei alguns prémios. Com os trabalhos de mestrado e doutoramento, não tive tanto tempo para prosseguir as minhas BDs. Contudo, nessa altura tive uma participação com uma revista científica sobre protecção de materiais, onde eu adaptava um dos artigos científicos da revista, para uma BD de quatro páginas a cores. Isso ainda durou alguns anos.

Depois de acabar o doutoramento em Inglaterra (1997), comecei então a olhar de uma forma mais séria para o meu trabalho de BD. Criei então a personagem “O Menino Triste” (meu alter ego) no início do século, que editei num pequeno livro de 20 páginas A5, a preto e branco. A história mostrava as angústias do crescimento, e da entrada na idade adulta da personagem, e era para ser uma história única. Contudo, como teve alguma recepção por parte do público, pediram-me para continuar a fazer histórias sobre a personagem.

Assim, criei “Os Livros”, que ganhou um prémio no Festival Internacional de BD da Amadora, e que fala sobre o amor aos livros que o meu pai me transmitiu desde criança. Novo pedido dos leitores, para fazer desta vez uma história mais longa com O Menino Triste. E criei “A Essência”, que foi publicada em álbum pela editora Qual Albatroz, e que foi nomeado para os prémios de melhor álbum desse ano, no Festival da Amadora.

Dois anos depois desenhei “Punk Redux”, que relata a minha primeira viagem a Londres em 1976, e onde tive contacto com os primeiros elementos do movimento punk que estava a despontar em Inglaterra. Eu quase toquei com uma das bandas que mais tarde se tornou bastante conhecida e refiro isso no livro (só que O Menino Triste toca mesmo).

Sendo O Menino Triste o meu alter ego, e não sendo a minha vida particularmente interessante para contar às pessoas, eu agarro nas minhas várias vivências ao longo dos anos, e misturo-lhe alguma magia, e assim nascem as histórias desta minha personagem. Actualmente, estou a escrever mais uma história d’O Menino Triste, e tem a ver com a vivência com o meu filho e os contos de fadas, e porque é que nós “acreditamos” nestes contos.

Como estava a ser demasiado “monocórdico” com apenas uma personagem, decidi há uns anos criar algo distinto do que tinha feito até então. Entrei um pouco na ficção científica, e num estilo de desenho mais realista, e criei o livro Butterfly Chronicles (200 páginas), num estilo a que chamei manga-tuga J, pois tem traços de mangá. A história passa-se numa universidade em Tókio, e tem a ver com a genética e a manipulação da memória, de uma forma fantasiosa, onde existe um jogo – Droidball – jogado por robots, e com equipas de várias universidades. Foi editado em e-book (em português, inglês e japonês) e está para sair agora em livro físico.

Estou também a terminar um argumento passado na primeira guerra mundial, em França, em que os protagonistas são duas crianças-soldado, uma francesa e outra alemã.

Entretanto, tive também algumas colaborações com o Brasil, nomeadamente com o Pedro Cirne, em que desenhei duas pranchas para a sua história “Púrpura” [abaixo, uma página ilustrada por ele], que muito prazer me deram, e também para a editora Marsupial, em que desenhei uma história escrita pela Samanta Floor. Nesse mesmo livro, em que havia quatro autores brasileiros e quatro portugueses, uma história minha foi desenhada pelo Brão Barbosa.

Não queria deixar de referir um ENORME projecto que tenho com o Festival Internacional Luanda Cartoon, e que é uma antologia de BD, de nome BDLP (Banda Desenhada de Língua Portuguesa). É uma antologia que envolve autores dos países lusófonos, e tem dado a conhecer sobretudo em Portugal e Angola (em termos físicos) e no resto do mundo (através das versões digitais disponíveis na internet) vários autores consagrados, e outros que de outra forma não chegariam ao conhecimento do grande público. O BDLP teve um Prémio no Festival AmadoraBD, outro no HQMIX e foi ainda nomeado para os Prémios do Festival de BD de Angoulème.

Dos trabalhos que fiz, gosto imenso de Os Livros, d’O Menino Triste, e das Butterfly Chronicles.

O que é mais difícil para você, enquanto autor de BDs? Escrever, desenhar, publicar? E o que é mais satisfatório?

Devido à minha crónica falta de tempo, a parte mais difícil do acto criativo para mim, é a parte do desenho, pois exige mais tempo. A parte da concepção da história, muitas vezes é imediata: surge uma idéia, e outras imediatamente se unem a essa inicial. Agora a execução gráfica… Já pensei em dar algumas das minhas histórias a outros autores para as desenharem, pois assim, talvez consigam ver mais depressa a luz do dia.

Que BDs portuguesas, ou artistas portugueses de BDs, você consome hoje?

Todos! Gosto imenso de ver todos os trabalhos que vão saindo e que me aparecem à frente. É lógico que me identifico mais com o trabalho de um ou de outro, mas no geral tento ver tudo.

Que características são próprias das BDs portuguesas? Ou seja, o que elas têm em comum que, por exemplo, os distingue dos mangás e dos comics norte-americanos?

A minha opinião pessoal é que não há uma BD que se possa reconhecer como portuguesa. Refiro-me a estilo, ou outra característica que a identifiquem como tal. Existe sim, uma BD feita por portugueses. É que os estilos e as várias abordagens que cada autor tem, faz com que não consigamos identificar uma BD como sendo portuguesa, contrariamente, por exemplo, à japonesa ou franco-belga. Existem, por exemplo, autores portugueses a trabalhar para o mercado americano, com um estilo, diria, mais “comic book”, mas há outros no mercado franco-belga. No total, não poderemos identificar algo como sendo genuinamente português, pois todos temos influência de alguma coisa do exterior.

Você poderia indicar ao leitor do Hábito de Quadrinhos cinco boas BDs lusitanas?

É sempre redutor fazer uma lista de preferências, pois acabam sempre por ficar de fora muitas de que gostamos também. Eu indicaria antes alguns argumentistas e desenhadores que são da minha preferência e têm publicado recentemente trabalhos de extrema qualidade, sem qualquer ordem de preferência.

Luís Louro, Osvaldo Medina, Joana Afonso, Nuno Duarte, Filipe Melo, Joana Mosi, André Oliveira, Jorge Coelho, Paulo Monteiro, Álvaro…

Não é tão fácil, aqui no Brasil, ter acesso a BDs europeias (portuguesas ou não). Nas livrarias portuguesas, notei uma enorme variedade de BDs europeias – algumas em seus idiomas originais, mas muitas traduzidas. Que BDs europeias contemporâneas você recomendaria?

Eu leio e gosto muito de Bilal, Boucq, Zidrou com Jordi Lafebre, Miguelanxo Prado, Loisel, François Bourgeon…

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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