Adoro os X-Men. Eu e muita gente, obviamente. Entretanto, no início, não eram exatamente um sucesso de público. No meio dos anos 70, a revista dos X-Men vendia tão pouco que, quando decidiram apostar em uma equipe criativa completamente nova, ficaram meses reimprimindo material antigo até que as novas histórias estivessem prontas. A Marvel não temia que as HQs repetidas afastassem seus leitores. Já eram tão poucos que não fariam diferença.

Aí veio o norte-americano nascido em Londres Chris Claremont.  Seu primeiro roteiro em quadrinhos havia sido publico em 1973. No meio de 1975, havia publicado histórias esporádicas aqui e ali. Mas resolveram dar uma chance ao garoto de 24 anos: vai que dá certo, né?

Chris Claremont escreveu os X-Men pelos 17 anos seguintes. Dezessete! Criou sagas incríveis (“Dias de um Futuro Esquecido”, “ A Saga da Fênix Negra”), grandes histórias (“Eu, Magneto…”, “Deus Ama, o Homem Mata”) e um monte de personagens bacanas. Um monte mesmo, pode escolher: Tempestade, Noturno, Kitty Pryde, Legião (sim, o do seriado maravilhoso!), Vampira, o brasileiro Mancha Solar…

E Claremont aproveitou recentemente uma rede social (“Reddit”) para dar algumas dicas sobre como escrever bons quadrinhos em série (ou seja, revistas mensais). Resumi três pontos, mas se você quiser ler o original (em inglês), é só clicar aqui. Basicamente, ele aborda três questões:

  • Histórias que sejam fechadas em si mesmas, para que um leitor que não conheça a cronologia anterior consiga se divertir;
  • Ambientação e personagem: se o leitor não sabe quem é o Pantera Negra nem Wakanda, ele precisa ser apresentado a eles logo no início da narrativa;
  • Cada edição tem de cativar cada vez mais os leitores.

OK, esse foi o sumário. Abaixo, está a teoria dos quadrinhos que ele escreve. É legal ler isso, claro!, mas fica ainda mais bacana se você voltar ao que ele já criou. Eu recomendo os já citados “Dias de um Futuro Esquecido” e “A Saga da Fênix Negra”.

Senhoras e senhores, com a palavra, Chris Claremont:

  • “[Em uma história em série, como uma revista mensal] Quando você vai em certa direção, pode fazer alterações ao longo do caminho. Voltar para Stan Lee e aprender com o cara que construiu o universo. Do ponto de vista do Stan, cada edição era um número único – eles têm um fim. Isso não significa que os personagens não possam progredir, mas cada edição em si é independente, porque naquela época a distribuição das revistas era péssima e o leitor nunca teria garantia de teria acesso à próxima edição. Portanto, você precisaria encontrar uma maneira de trabalhar nessas condições. Mas, como Stan diria, se for um ótimo conceito, você pode fazer em duas edições, como “Dias de Um Futuro Esquecido”. Mas as últimas cinco páginas têm que ser algo para deixar o leitor curioso pela próxima edição.
  • “Aprendi a escrever quadrinhos em um mundo em que era preciso equilibrar e fisgar as pessoas com entusiasmo, mas também era preciso estar consciente de que a banca de jornal talvez não recebesse todas as edições em sequência. Então, cada edição tem um novo leitor, e você tem que deixar claro quem são os personagens, qual é a realidade [em que se passa a história].”
  • “Cada edição é um degrau em uma escada infinita que a tornará melhor para os artistas, para a empresa e um pouco para os personagens. E trazer tantos leitores quanto humanamente possível.”
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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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