Publicamos ontem aqui no Hábito de Quadrinhos uma entrevista com a quadrinista Germana Viana sobre quadrinhos eróticos – entre outros temas. Afinal, as outrora escamoteadas “HQs sensuais” estão sendo publicadas às claras: é o caso da revista “Ménage”, cocriada pela Germana e por Laudo Ferreira e Marcatti; da edição especial “Café Espacial” cuja temática será erotismo e desejo (vários artistas participam, inclusive Laudo Ferreira); e da revista “Tianinha”, escrita, desenhada e editada por… Laudo Ferreira.

Sim, você percebeu corretamente: Laudo Ferreira está em todas! Soma-se a isso o fato de ele ser um ótimo artista e, voilá!, temos aqui uma entrevista com ele.

Laudo nos fala sobre o sucesso de sua personagem Tianinha e o que a trouxe de volta de sua “aposentadoria”, e também de suas influências, preocupações e estilo. “Não tenho preocupação com rótulos, principalmente porque sei muito bem o que quero pro meu trabalho e o tempo de estrada já me permite pular estas apreensões.”

Por favor, conte um pouco sobre você. Onde nasceu e cresceu, em que trabalha… Como você começou a ler quadrinhos? Que obras, personagens ou autores te interessavam?

Nasci em São Vicente, litoral de São Paulo lá nos idos 1964. Morei um bom tempo no interior no início da adolescência. Sou ilustrador, quadrinista e professor, dou aula de storyboard na Escola Panamericana de Artes.

Não tenho lembrança de “quando” comecei a ler quadrinhos, mas foi muito cedo, assim como o desenho se manifestou em mim muito cedo também e a lembrança que tenho é de fazer algo que pode se dizer como “rabiscos sequenciais”. Sempre foi quadrinhos, sempre foram histórias contadas, não tinha muito essa coisa de fazer desenho disso ou daquilo. E claro, como a grande maioria, sou autodidata.

Os primeiros quadrinhos que me ganharam foram os clássicos: “Flash Gordon”, de quem fui e ainda sou muito fã, “Mandrake”, “Fantasma”… Depois, vieram os heróis Marvel e DC, mas sou da época das editoras Ebal e Bloch, então o delírio de ler esses herós não era como hoje em dia, a coisa era bem tranquila, pelo menos para mim.

Ainda nos anos 70 descobri os quadrinhos nacionais, gostava muito, os gibis de terror, de guerra, western, produzidos pelo Rodolfo Zalla, Colonesse, e, principalmente, o Nico Rosso. Esse artista vale um destaque porque foi o primeiro que realmente me fez a cabeça: seu traço e principalmente suas mulheres eram fantásticas. Acredito que meu despertar ao erotismo nos quadrinhos, veio por intermédio das HQs dele.

Um pouco depois descobri Crumb, Guido Crepax, revista “Grilo” e mais pra frente Seto, Colin, Shima, Angeli, Laerte, Glauco, essa turma toda. Para fechar, teve Moebius no início dos anos 80, esse fez muito a minha cabeça em muitos pontos.

Apesar de adorar quadrinhos, a minha base não veio só disso. No início dos anos 80 tive uma vivência muito forte e ela se estendeu até meados da década, com poesia e música. Acredito, hoje, que essa experiência foi fundamental para moldar certos parâmetros na minha criação de HQs, principalmente se tratando de histórias.

Como surgiu a Tianinha?

Durante uma boa parte dos anos 90, trabalhei com Licínio Rios, editor conhecido no meio e um dos responsáveis pela criação da revista “Sexy”. E foi num retorno seu à editora Rickdan, responsável pela publicação, no início do ano 2000, que ele me chamou para ilustrar a revista e criar uma série nova para uma versão mais barata da publicação que se chamaria “Sexy Total” (posteriormente passaria só a “Total”).

Para essa série, pensei em criar uma garota loira, sensual, e totalmente liberada, mas com um perfil bem realista, do tipo que o leitor conhece alguém daquele tipo, visualmente falando, e Licínio a batizou de Tianinha.

A personagem durou na revista o tempo de existência da mesma: nove anos. Em 2009, quando do cancelamento da publicação, a personagem estava no auge de seu sucesso, tanto editorial quanto na internet.

Para se ter uma ideia, uma página da personagem, os antigos fotologs, chegava a ter 200 mil visitações no mês, o que na época era um número considerável. Esse sucesso se estendia às publicações solo da Tianinha. Foram lançadas três edições especiais em meados dos anos 2000, que chegaram a vender 50 mil exemplares, mas, como mensalmente suas aventuras eram publicadas numa revista de mulher nua, e com o passar do tempo por causa da própria internet, esse tipo de revista começou a ter uma queda de vendas… O título foi cancelado e, consequentemente, as aventuras da Tianinha.

Isso foi em 2009… E como a Tianinha ressurgiu?

Em 2016, alguns amigos que de certa forma foram ligados à personagem, como o jornalista Roberto Sadovski, que foi editor da Rickdan um período e fã da personagem, comentavam comigo da possibilidade de trazer a Tianinha de volta, principalmente pela questão da força feminina crescente nos quadrinhos. A personagem significava esse empoderamento de certa forma – mesmo sendo feita por um homem.

E a certeza disso veio no mesmo ano, quando ao terminar uma palestra em uma biblioteca aqui em São Paulo, três jovens vieram conversar comigo se dizendo fãs do meu trabalho e em especial da Tianinha. No momento fiquei intrigado com o por que de uma personagem de perfil erótico, de certa forma sexista e vinculada numa revista masculina, atrairia garotas – e que eram muito mais novas no período da publicação da série.

Questionadas por mim sobre a razão desse interesse, uma delas me respondeu sem titubear que algo fundamental na personagem e que dizia muito para elas era o fato de tudo que a Tianinha fazia, transar com quem quisesse, homem, mulher, casais, enfim, fazia sem culpa, totalmente dona da situação. E tudo aquilo dizia muito para elas.

No final da conversa, e após me despedir das meninas, estava completamente embasbacado com as coisas que elas me trouxeram da personagem. Essa visão feminina da Tianinha, vindo de jovens, foi fundamental e mexeu muito comigo. Foi aí que resolvi trazer a personagem de volta, dentro de uma proposta diferente do que fizera na primeira fase de suas histórias. Ou seja, tirar o conteúdo sexista e o excesso de erotismo e me concentrar mais em suas aventuras, na sua busca, em seu percurso. A jornada da heroína.

Seu trabalho com a Tianinha é bem autoral: você faz tudo no processo! Pode contar aqui, por favor, quanto tempo leva para produzir uma edição e quais são as principais etapas? Imagino que seja ideia da história, roteiro, desenho, nanquim, letreiramento, capa, impressão e divulgação. É isso?

Como a revista é continuada, ou seja, as histórias têm sequência entre uma edição e outra, vou construindo aos poucos essa jornada. O processo de escrever o roteiro (penso primeiramente como roteirista) é mais ou menos de uma semana, e desenhar leva em média quase um mês – são 23 páginas de miolo, contando que essa produção é feita ao mesmo tempo que outros trabalhos e projetos meus.

Desenho, arte-finalizo, letreiro. Claro, conto com a ajuda de algumas pessoas, como a revisora de texto, Camila Andrade, o editor e design Sergio Chaves para dar um “tapa” final na edição, e o Marcatti que rodou os números um e dois e voltará a imprimir a partir desta quinta edição. E a divulgação, posteriormente, sigo eu mesmo fazendo.

Quadrinhos eróticos sempre existiram, mas nem sempre o acesso a eles foi fácil. Quando você criou a Tianinha, havia algum quadrinho erótico que teve como referência? Ou de alguma outra arte, como cinema?

Não sei se sempre foi tão restritivo assim o acesso às HQs eróticas. Nos anos 80, havia as publicações da Press Editorial e Nova Sampa, do qual já participava e que vendiam muito bem. Depois, nos anos 90, a coisa aumentou consideravelmente. Lógico que sempre publicadas por editoras médias e pequenas.

Mesmo obras mais artísticas, como do [Milo] Manara e Guido Crepax, uma ou outra coisa já circulavam. Sexo sempre teve um bom público, talvez atualmente esse seguimento nos quadrinhos esteja mais adulto, digamos assim, mais artístico e menos feito para adolescente ler no banheiro, até porque temos a internet aí.

Nunca tive referência de quadrinhos para produzir a série da Tianinha, tanto a antiga como a atual, mas há uma influência muito grande do cinema dos anos 70 que assisti na época (sou precoce em algumas coisas), pornochanchada brasileira e italiana, principalmente, e alguns filmes de diretores como [Pier Paolo] Pasolini, Alejandro Jodorowski e Mario Bava. Esses e alguns outros diretores ainda hoje me influenciam. ]

Há também toda uma estética do cinema pornô do início dos anos 80 que influenciou também na primeira fase da série. A Tianinha desse período inicial foi inspirada em atrizes do gênero, como Ginger Lynn e Debi Diamond.

Quando você escreve & desenha, há algum limite que você se preocupa em não ultrapassar? E há, pelo contrário, algo que você se preocupa em incluir – poxa, a pessoa que vai ler comprou uma HQ erótica, então eu tenho de…

Não. Primeiramente porque a pessoa que hoje compra uma revista minha está comprando um trabalho com uma assinatura minha, seja lá que gênero for, terror, místico, erótico, ficção-científica… Então há certos elementos comuns em minhas histórias que o leitor que já conhece meu trabalho sabe que irá encontrar e quem não conhece, passa a conhecer. Não faço mais o tipo de quadrinhos eróticos que desenhei nos anos 90, a coisa é outra.

Mas há uma preocupação constante com o leitor, sempre, em todos os meus trabalhos. É pensando nele que muitas vezes crio certas coisas nos meus quadrinhos, quase como um jogo, querendo puxar o tapete dele na expectativa da leitura. Aquela coisa de o leitor já esperar certas coisas e eu aqui do meu lado de criador, julgar que esteja aguardando determinada situação e você tirar o gosto dele, acredito que isso vá colher ótimos resultados na leitura, uma ótima experiência.

Isso fiz em trabalhos como a minissérie que lancei em 2008, “Depois da Meia-Noite”; em “Yeshuah”, no último livro principalmente; “Onde Tudo Está” e na série da Tianinha.

Em sociedades conservadoras, a arte erótica não é vista com bons olhos. Aliás, nem precisa ser erótica. No ano passado, o prefeito do Rio mandou recolher uma HQ de super-herói só porque tinha um beijo gay na capa. Você já deve ter ouvido críticas ou ataques por conta do conteúdo da Tianinha (ou do Ménage). Você se preocupa com receber críticas/ataques? De ser chamado de pornográfico ou algo assim?

Olha, percebo às vezes um certo tipo de “preconceito” até mesmo entre outros artistas e editores do meio dos quadrinhos, que não se interessam em ler a série da Tianinha, por fazer justamente um pré-julgamento do que vai encontrar, pensando ser, acho, só “sacanagem”. Isso já constatei em pessoas que leram e depois mudaram completamente de opinião.

Tanto a trilogia inicial do “Yeshuah”, como a compilação “Yeshuah Absoluto”, já sofreram isso, por vários preconceitos, inclusive julgando uma obra religiosa e falar de Jesus.

Portanto, especificamente falando do material da Tianinha e agora da “Ménage”, não tenho, de modo algum, preocupação com rótulos, principalmente porque sei muito bem o que quero pro meu trabalho e o tempo de estrada já me permite pular estas apreensões. 

Como está sendo fazer a revista “Ménage”?

Uma delícia. Trabalhar com amigos tão queridos como Germana e Marcatti é primeiramente um prazer e claro, são artistas que admiro muitíssimo.

Cada um tem seu espaço dentro dessa “suruba”, pois cada um de nós já tem seu trabalho muito bem delineado, então é juntar para ver como cada um lida com o tema proposto.

Apesar do nome da publicação sugerir algo de cunho erótico, os temas e as HQs necessariamente não são. Isso com certeza será mais perceptível à partir da segunda edição, embora, neste primeiro número a HQ do Marcatti que abre a revista, já é uma prova do que digo.

Acredito que o desafio de juntos trabalharmos em nossos universos pessoais para se criar as HQs que irão compor cada edição seja um desafio delicioso, principalmente para ver como sairá isso e como o público irá receber.

Você pode indicar ao leitor do Hábito de Quadrinhos cinco boas HQs eróticas nacionais?

Quem puder encontrar em sebos ou pela net, as HQs produzidas pelo Mozart Couto em diversas revistas da Press Editorial no início dos anos 80, ele está soberbo naquele período como poucos conseguiram fazer arte erótica com boníssimo gosto.

Mais recente, publicações da Germana Viana como “Patricia” e a série “Catecismos de Mama Jellybean” são putaria feita sem culpa alguma, se divertindo com isso e despreocupada com o que irão pensar. Perfeito. Germana reina absoluta nas histórias, nos desenhos e na sacanagem, claro.

Diva Satânica“, do Brão, outro que é estupendo numa arte erótica sem limites, tudo pode ali.

Mais uma pesquisa nos sebos virtuais atrás de “Maria Erótica”, do mestre Claudio Seto: fantasia, psicodelia, arte de amarrar, aquelas coisas com cordas e um erotismo meio leve que é fundamental conhecer.

A coletânea “Golden Shower” que explora várias questões sexuais com a participação de artistas de primeiríssima.

Vale dizer que, dentro do meu conhecimento pelo menos, não há um grande leque de produções nacionais no gênero. Quem eu vejo que tem produzido muita coisa nesse gênero é justamente as mulheres, curiosamente me parece que os homens não se interessam em abordar o erotismo, ou pode ser um certo preconceito.

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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