Os quadrinhos brasileiros estão avançando nos quesitos de inclusão e diversidade? O tema é vasto e não se resolve em poucos textos. Publiquei esta semana, na TV Cultura, uma coluna sobre o tema, ouvindo Kelly Priscilla Lóddo Cezar, do projeto “HQ’s sinalizadas”, e Mário César, da POC CON.

Hoje, publico a íntegra da entrevista com a pós-doutora Kelly Priscilla Lóddo Cezar, líder do projeto de pesquisa “HQ’s sinalizadas”, que não só cria quadrinhos para surdos como cuida de sua distribuição. Para ler a íntegra da entrevista com Mário César, é só clicar aqui.

Por favor, primeiro se apresente. Quem é você e qual seu papel no projeto HQ’s sinalizadas.
Olá! Eu sou a professora Kelly Priscilla Lóddo Cezar, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), campus Curitiba. Sou lotada no setor de Ciências Humanas e a maioria da minha carga horária docente ministro no curso de licenciatura Letras Libras. Sou a idealizadora e responsável pelo projeto de pesquisa HQ’s Sinalizadas.

Por favor, apresente o projeto HQ’s sinalizadas para o leitor.
O projeto institucional “HQ’s Sinalizadas” é um trabalho amplo de várias etapas metodológicas seguindo a perspectiva do bilinguismo para surdos. É visto como uma metodologia de criação de histórias em quadrinhos sem o uso corriqueiro de “balões”. Os destaques são nas expressões faciais e na comunicação visual de sinais. As características das personagens são baseadas na cultura.
Todas as HQs têm vídeos em Libras (sinalários, glossários, história da história) que transmitem as ideias na primeira língua para os surdos usuários da Língua Brasileira de Sinais. Trabalhamos com temas transversais dos artefatos da cultura surda que envolve sua história, sua língua, sua cultura e abordamos a área da saúde. O aluno-orientado tem a liberdade de escolher o tema a ser desenvolvido na temática do projeto. Depois dessa etapa, iniciamos as pesquisas bibliográficas e, após o roteiro pronto, iniciamos os convites para criação da equipe de especialista que irá compor a HQ criada. Junto a isso, realizamos um levantamento etnográfico dos principais conceitos que será na temática investigada sobre os sinais/registros existentes sobre os conceitos. Isso se dá em função de as línguas de sinais não terem muito registro dos sinais em diferentes áreas do conhecimento. Dessa forma, criamos sinalários e glossários como forma de quebrar a barreira linguística do tema que está sendo estudado.
Depois da criação da HQ sinalizada, os alunos, como última etapa, elaboram sequências didáticas bilíngues para propor a forma como os professores poderiam utilizá-las em suas aulas na perspectiva teórica que adotamos, o bilinguismo para surdos.

Quais são as metas da HQ’s sinalizadas? Quais são as dificuldades para chegar lá? E o que vocês já conseguiram até agora?
A meta do projeto é despertar o interesse sobre as línguas de sinais do Brasil, em especial, a Língua Brasileira de Sinais. No âmbito acadêmico a meta é estudar, registrar e documentar em histórias em quadrinhos, artigos científicos, participações em eventos, entre outros essa área de conhecimento.
No que tange a produção física da HQ, o objetivo versa na ampliação da divulgação para além da universidade, uma forma de devolutiva da pesquisa para sociedade, já que esse gênero é do “gosto” da maioria da população. Ao terem acesso à HQ e observarem a existência dos vídeos em Libras, mesmo para quem não domina essa língua de sinais, conseguirá compreender e além disso, saber de sua existência e de seu valor linguístico, educacional, social e cultural.
A receptividade da sociedade acadêmica e não acadêmica tem sido muito positiva, o fator de trabalharmos em conjunto com a comunidade e de dar representatividade real na criação das personagens tem “caído” no gosto do público.
Como qualquer área que se inicia, as dificuldades são imensas. Neste momento, uma das principais dificuldades está em ter ilustradores para transpor as pesquisas (roteiros) já realizados ou em fase de finalização.
Na parte de Libras e edição de vídeos nossos, os alunos do curso de Letras Libras têm formação suficiente e de muita qualidade que realizam de maneira original e de muito empenho, pois sabemos que os recursos digitais, neste momento de pandemia, têm sido um grande desafio.


A dificuldade maior de todas é a falta de financiamentos para os e-books saírem de forma gratuita para a todos! A meta é serem disponibilizadas tanto digitalmente como impressas de forma gratuita para as escolas de surdos.
Temos conseguido parcerias, mas ainda não é o suficiente para que essas HQ’s sinalizadas venham ser distribuídas gratuitamente. Nossa última publicação destinada a temática das línguas indígenas de sinais, em especial, a língua terena de sinais, foi trazer ao maior número de pessoas possível a consciência da existência das línguas de minorias e que o Brasil não é um país monolíngue nem na língua de sinais, ou seja, não existe somente a Língua Brasileira de sinais, mas um universo linguístico e social maior a ser conhecido e respeitado. Foi realizada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pelo Instituto de Pesquisa da Diversidade Intercultural (IPEDI), conseguimos o financiamento de publicação impressa para distribuição gratuita nas escolas da aldeia Cachoeirinha (MS) patrocinada pela Lei Aldir Blanc. As vendas dessa HQ serão destinadas ao IPEDI [Instituto de Pesquisa da Diversidade Intercultural], para realização de um curso de formação de professores para trabalharem com as línguas de sinais.

De que iniciativas para melhorar a diversidade no mundo dos quadrinhos a sra. mais gosta? Pode citar projetos, ou obras, brasileiros ou do exterior, se preferir.
Como alguém apaixonada pelos quadrinhos, é difícil citar projetos específicos na área da diversidade, pois a nona arte além de estar presente como forma de resistência, valores e cultura (luta cultural) em todas as sociedades não há tema que os quadrinhos não abordem de forma fantástica e de promoção às mudanças.
Na área de acessibilidade digital e inclusão, o que tenho percebido são iniciativas, ainda muito pontuais, na área do Web quadrinhos que utilizam as ferramentas digitais para incorporar audiodescrição e Libras, o que para o suporte impresso encarece demais a produção.

A sra. pode indicar três HQs nacionais para os leitores da coluna Hábito de Quadrinhos? Não precisam ser ligados à diversidade e podem ser do HQ’s sinalizadas, se você quiser.
Eu gostaria de citar várias histórias em quadrinhos, pois a cada dia são lançadas uma mais interessante que a outra:
Indico a HQ “Saudade”, de Melissa Garabeli e Phellip Willian, pois as temáticas e as ilustrações são encantadoras, não há como não se “apaixonar”.
Seguindo mais especificamente na linha de meus trabalhos, eu indico a HQ do Fulvio Pacheco “Relatos Azuis” ,que tem uma abordagem sobre o autismo.
Eu também não deixaria de indicar a mais nova de nossas HQ’s sinalizadas “Séno Mókere Káxe Koixómuneti. O principal intuito da criação da HQ é promover reflexões acerca da elaboração de materiais bilíngues/plurilíngues para surdos brasileiros com o intuito de promover acessibilidade linguística, divulgar, registrar e valorizar as línguas de minorias como patrimônio histórico e cultural da humanidade.

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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