Negros, gays, asiáticos, mulheres e pessoas com deficiêcias têm a representação que merecem nos quadrinhos? Escrevi uma coluna na TV Cultura sobre o tema, e para tanto ouvi duas pessoas que entendem muito mais do que eu sobre o assunto: Mário César, da POC CON, e Kelly Cezar, do projeto “HQ’s sinalizadas”.

Você pode ler a coluna aqui, mas aproveito para publicar a íntegra da entrevista com Mário César, um dos organizadores da POC CON, feira LGTBQ+ de quadrinhos e artes gráficas (por transparência, compartilho que é coautor da graphic novel “Púrpura”, escrita por mim). Aproveitei e também publiquei aqui no site a íntegra da entrevista com a Kelly Priscilla Lóddo Cezar.

Por favor, primeiro se apresente. Quem é você e qual seu papel na PocCon.
Olá, me chamo Mário César. Sou autor e editor de histórias em quadrinhos. Já venci o Troféu HQ MIX 4 vezes e fui finalista do Prêmio Jabuti duas vezes. Fui um dos primeiros autores brasileiros assumidamente LGBTQI+ a abordar questões de sexualidade e gênero nos gibis nacionais com meu livro “Ciranda da Solidão“. Tenho diversos trabalhos publicados tanto de forma independente quanto por editoras, inclusive “Púrpura“, com roteiro de Pedro Cirne. Meu trabalho mais recente, “Bendita Cura“, mostra o que é ter a vida marcada pela homofobia e por terapias de reversão sexual popularmente conhecidas como “cura gay”.
Alem disso eu sou cocriador e um dos organizadores da POC CON.

Por favor, apresente a POP CON para o leitor. Como funcionava antes da pandemia e como funciona hoje.
A POC CON é uma feira de quadrinhos e artes gráficas na qual todos os expositores são LGBTQI+. Os artistas não precisam necessariamente abordar questões de gênero e sexualidade em seus trabalhos, precisam apenas ser autores assumidamente LGBTQI+ produzindo quadrinhos e/ou artes gráficas.
Fizemos a primeira edição em 2019 antes da pandemia de forma presencial. Houve uma feira com cerca de 73 artistas expositores e 14 empresas. O evento também promoveu uma série de debates e palestras abordando questões de diversidade no meio geek e um concurso de cosplay misturado com os lipsyncs de drag queens no qual os competidores fantasiados de seus personagens favoritos dublaram uma música de sua escolha.
Em 2020, por conta da pandemia, tivemos que fazer o evento de forma virtual. Divulgamos os perfis e lojas virtuais dos artistas, fizemos um concurso de cosplay nos qual os competidores enviaram seus vídeos gravados em casa, realizamos vários bate-papos disponibilizados em nosso canal de YouTube e criamos uma gibiteca digital com diversos títulos disponibilizados gratuitamente pelos autores.

Quais são as metas da PocCon? Quais são as dificuldades para chegar lá? E o que vocês já conseguiram até agora?
Nossa meta é dar visibilidade para autores LGBTQI+ que nem sempre tem as mesmas oportunidades que autores heterossexuais cisgêneros no mercado de trabalho e discutir questões de diversidade no ainda muito preconceituoso meio geek para combater homofobia, transfobia, machismo, racismo e xenofobia.
A POC CON obteve um sucesso muito além do que nós esperávamos. Muitos autores nos revelaram vendas na POC CON superiores até às que tiveram na CCXP, que é simplesmente o maior evento do segmento. Conseguimos ser destaque em diversos veículos de comunicação de grande alcance e, inclusive, no dia da feira tivemos link ao vivo do SP TV e da GloboNews. Recebemos convites da Disney e do Twitter para palestrar para seus funcionários. Os bate-papos foram bem recebidos e tivemos nomes de peso como a Laerte entre os convidados. Percebemos que algumas editoras, como a Skript, já estão investindo mais em publicações de autores LGBTQI+ por conta do sucesso da feira. Eu organizei e editei uma coletânea para eles chamada “Sob a luz do arco-íris“, tem a “Quadrinhos Queer” e temos novas parcerias à vista.

De que iniciativas para melhorar a diversidade no mundo dos quadrinhos você mais gosta? Pode citar projetos, ou obras, brasileiros ou do exterior, se preferir.
As iniciativas que mais gosto são as que geram renda e visibilidade para os autores LGBTQI+, como foram o caso do convite para e organizar uma coletânea para a editora Skript, o convite do Twitter para lhes apresentar autores que eles podem convidar para criar artes para campanhas ou o convite da TeleCine para alguns autores criarem artes inspiradas em filmes com temática LGBTQI+ que entraram em sua grade de programação.
Foi muito importante também na última CCXP presencial o destaque que deram para autores LGBTQI+ interagindo com a apresentadora Lorelay Fox no centro do Artist’s Valley e a criação dos banheiros sem gênero.

Você pode indicar três HQs nacionais para os leitores da coluna Hábito de Quadrinhos? Não precisam ser ligados à diversidade e podem ser de sua autoria, se você quiser.
Vou indicar aqui um trabalho que me emocionou muito recentemente que é o “Cartas para Ninguém“, da Diana Salu, minha conterrânea lá de Brasília. É um trabalho poético e muito sensível no qual ela fala de seu processo de transição. A edição é caprichadíssima. Acabou de ganhar uma reedição pela Padê Editorial.
Outro que recomendo muito é o “Cara-Unicórnio“, do Adri A., um autor gaúcho muito talentoso. É um dos gibis nacionais mais divertidos da atualidade. Trata-se de uma paródia de super-heróis com pitadas de terror. Conta a história de um cara que foi picado por um unicórnio radioativo e trata de diversidade com muita sensibilidade ao mesmo tempo que te faz rir com muito humor e entreter com cenas de ação empolgantes.
Pra encerrar a lista, vou recomendar uma obra-prima recente dos quadrinhos nacionais chamada “Roseira, Medalha, Engenho e outras histórias“, do sensacional Jefferson Costa. O Jefferson conta a história da família dele que é do sertão nordestino com uma arte espetacular e um roteiro pungente e visceral. A edição da Pipoca e Nanquim ficou caprichadíssima, bem à altura do material.

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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