Quando, no final de agosto, ganhei de aniversário “Words for Pictures”, do excelente roteirista Brian Michael Bendis, pensei: “Uau, que legal! Deve ser um baita livro sobre como escrever quadrinhos!”. Felizmente, errei.

Bendis tem décadas de atuação no ramo. No início, escrevia, ilustrava e até fazia as letras – seu ótimo “Torso”, por exemplo, é uma exemplo de suas ilustrações (infelizmente, ainda está inédito no Brasil). Hoje, ele é um dos grandes nomes do gênero dos super-heróis – explico aqui por que o considero tão bom, mas posso tentar resumir contando que ele teve passagens antológicas por Demolidor e Vingadores, na Marvel, e agora está se divertindo (e nos divertindo) com Superman e Legião dos Super-Heróis, na DC Comics.

Enfim, seu livro está saindo no Brasil: “Escrevendo para Quadrinhos”, da WMF Martins Fontes. Sim, o livro cumpre o que promete: dá dicas de como estruturar um roteiro; explica a diferença entre o “método Marvel” de escrever e o “método tradicional”; fala da importância de dar vozes diferentes aos personagens – afinal, por exemplo, se três pessoas veem um mesmo acidente de trânsito, dificilmente terão a mesma reação. O sentimento pode até ser igual, mas dos gestos às palavras, tudo será diferente.

 “Escrevendo para Quadrinhos” me ensinou muita coisa, mas vou resumir aqui apenas as que mais me chamaram a atenção.

* Roteirista e ilustrador são mais do que colegas. Não há uma hierarquia de comando: não é que um manda e o outro desenha. Quanto mais você souber a respeito do artista com quem está trabalhando, do que ele gosta e do que não gosta, maiores as chances de a parceria render bons frutos.

* Bendis entrevistou muitos artistas para fazer perguntas bem interessantes – e o fato de poucas respostas baterem mostra o quanto é importante conhecer melhor com quem você está criando. Do que um ilustrador mais gosta em um roteiro? Do que menos gosta? É melhor um escritor detalhar demais… ou de menos? Há um limite no quanto o roteirista pode dar pitacos?

* A parte de “quadrinhos são um trabalho coletivo” é muito enfatizada. Além de desenhista, arte-finalista, letreirista e colorista, temos, claro… o editor. Mais uma vez no formato “perguntas interessantes para pessoas diferentes responderem”, Bendis apresenta temas como: qual a melhor maneira de apresentar seu trabalho para um editor? Que tipo de gênero você deve enviar para quem? Até quando deve-se insistir?

* HQs são frutos de parcerias, e não só na parte artística. Bendis fala da importância da sua agente literária/empresária (que, por acaso, é a sua mulher); o que você deve prestar atenção nos contratos; a importância de um consultor jurídico etc.

Repare no que falamos acima: maneiras de lidar com o desenhista; como abordar um editor (e, depois, claro, trabalhar com ele); a importância de olhar financeiro e jurídico para lidar com a carreira… Fica bem claro, aqui, que estamos falando de muito mais do que “apenas” como escrever quadrinhos, não?

Há poucos livros teóricos sobre como criar histórias em quadrinhos. Pouquíssimos são excelentes. Na minha sala, agora tenho uma “santíssima trindade”: “Quadrinhos e Arte Sequencial”, de Will Eisner, lançado em 1985 (e sua continuação, “Narrativas Gráficas”); “Desvendando os Quadrinhos”, de Scott McCloud, de 1993 (e suas sequências: “Desenhando Quadrinhos” e “Reinventando os Quadrinhos”). E, agora, “Escrevendo para Quadrinhos”. É um privilégio ter estes livros na minha estante.

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho na Argus Media e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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