
Tenho muitos sonhos como fã de quadrinhos. Um deles é ir para a França e desfrutar do que for possível de uma edição do tradicional e charmoso Festival de Angoulême, um dos mais tradicionais do mundo.
Eu não iria em 2026 por mil motivos. Mas isso não me deixou menos surpreso com o anúncio, feito na semana passada, do cancelamente da edição do ano que vem. Esta é a primeira vez desde a criação do festival em 1974 — com exceção, claro, do período da pandemia de Covid-19 — que o evento não será realizado. A 53ª edição estava prevista para 29 de janeiro a 1º de fevereiro de 2026.
Segundo a emissora pública francesa RFI (Radio France Internationale), o cancelamento ocorreu após a retirada de fundos públicos e de um boicote por parte de dezenas de autores e editores que afirmam que o evento tem sido mal administrado há anos.
Em 18 de novembro, narra a RFI, o governo francês retirou 200 mil euros de subsídios públicos para o evento do próximo ano, causando um grande rombo nas suas finanças. No centro do escândalo está o modelo de gestão do festival.

Segundo a RFI, o Festival de Angoulême é administrado por uma associação sem fins lucrativos presidida por Delphine Groux, filha do cofundador Francis Groux, mas é organizado por uma empresa privada, a 9eArt+, desde 2007. O diretor da 9eArt+, Franck Bondoux, foi alvo de uma investigação pela revista L’Humanité antes do evento deste ano, que o acusou de má gestão. A revista também relatou que a empresa demitiu uma funcionária logo após ela ter relatado ter sido estuprada no evento de 2024.
A recente renovação da empresa para organizar o evento depois de 2027, quando expira o contrato atual, desencadeou uma forte onda de protestos, segundo a agência de notícias AFP, também francesa. Depois, a associação que detém os direitos do festival cancelou o acordo.
Em 20 de novembro, os principais financiadores públicos do festival – que normalmente fornecem cerca de metade do seu orçamento de 6 milhões de euros – recomendaram que a edição de 2026 fosse cancelada, afirmando que seria “extremamente difícil” realizar o evento nas circunstâncias atuais.
“O Festival de 2026 não pode fisicamente decorrer em condições satisfatórias”, afirmaram os advogados da 9e Art+ num comunicado enviado à AFP. “Esta situação não é, de forma alguma, uma decisão voluntária da 9e Art+, cujo único objetivo é organizar o Festival de Angoulême, mas sim uma decisão unilateral tomada sem consulta dos financiadores públicos.”

Outras matérias que li a respeito enumeram uma lista maior, além das já citadas acusação de acobertamento de estupro e corte de orçamento: nepotismo, boicote organizado por autores e editoras e críticas de péssima administração.
Não sei se haverá uma edição de 2027. Mas parece ser necessário que, caso ocorra, passe por uma enorme reestruturação.
