Repare nos créditos desta HQ, ótima adaptação de um excelente livro. Os nomes dos autores aparecem acima do título: “Nicoby” e “Vincent Zabus”; logo abaixo, “O Mundo de Sofia em Quadrinhos“. Mais abaixo, “baseado no livro de Jostein Gaarder”.

Simples, direto e correto.

Por que estou chamando atenção para este crédito? Porque não é incomum achar na capa de adaptações créditos que, na minha opinião, induzem ao erro. Vamos dizer, por exemplo, que os quadrinistas Carlos Mangualde e Brasil Bonilla adaptem em HQ um romance excelente, como “Fogo Morto”, de José Lins do Rego.

(Não se preocupe: Carlos Mangualde e Brasil Bonilla não ficarão ofendidos de aparecer aqui. Eles não existem. São pseudônimos meus…)

Então, digamos que você chega na livraria e encontra uma HQ com a capa linda e o título “Fogo Morto em Quadrinhos”. Acima dele, os créditos aparecem assim: “José Lins do Rego * Carlos Mangualde * Brasil Bonilla”. O que você acharia?

Eu acharia que o José Lins do Rego participou diretamente da adaptação. Ou seja, que ele escreveu o roteiro da HQ a partir de sua prosa. E que, claro, Mangualde e Bonilla também participaram – talvez ambos na arte, talvez um ajudando a trabalhar o roteiro e o outro ilustrando. Mas não foi isso. José Linso do Rego nem chegou perto da adaptação. Ele escreveu o livro original e ponto.

Escrevo isso porque é muito comum eu ver, em capas de HQs, construções como a do parágrafo acima.

Já me incomodou mais de uma vez eu pegar para ler uma HQ em que estava escrito o nome de um escritor como autor e ele não teve nada a ver com a adaptação.

Não vou dar exemplos literais para não ofender ninguém, mas deixar apenas este comentário. Em construções como “Platão * Carlos Mangualde * Brasil Bonilla”, verifique antes de comprar ou pegar na biblioteca: será que foi o PLATÃO que participou da adaptação para quadrinhos? Será mesmo? Não seria mais bacana se estivesse, tal qual o exemplo citado na origem deste texto, “Carlos Mangualde” e “Brasil Bonilla” no alto; logo abaixo, “A República em Quadrinhos”; e, mais abaixo, “baseado no livro de Platão”? Eu, sinceramente, prefiro assim. E adoraria ter a honra de adaptar um livro do Platão, é claro.

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho no Estadão e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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