Vi uma notícia interessante na Folha sobre a eleição na Alemanha – e sobre a ascensão do partido de extrema-direita AfD (Alternativa para a Alemanha).

Há uma campanha nas redes sociais inspirado na série “Amar É…“, criada em 1968 pela neozelandesa Kim Casali. Quando eu era criança, esta série era um sucesso aqui no Brasil: havia álbum de figurinhas, brinquedos etc. Virou até videogame da Nintendo. Na minha escola, em São Paulo, era uma febre.

O que eu não sabia é que, antes de tudo, era uma série de cartuns.

A série, que começou a ser publicada em jornais em 5 de janeiro de 1970, era cocriada por Kim e seu marido, Bill Asprey. Quase não eram histórias, mas reflexões sobre amor e companheirismo. Eram frases fofas e delicadas, que, para mim, adquiriram mais força quando eu soube que os autores interromperam a criação em 1975 para enfrentar o câncer de Bill, então já em fase terminal.

Reli recentemente um livro da série. E achei suave e bonito. Por isso, fiquei curioso ao ver uma reportagem relacionando “Amar É…” à extrema-direita alemã: seus cartuns estão sendo usados para combater a ascensão da AfD. A matéria da Folha explica assim a campanha “Mais do que nos separa“:

Em redes sociais, a coleção “Amar é…”, que ainda tem presença no mercado editorial alemão, virou base para uma série batizada como “Amar a pátria de verdade é…”. Pátria, no caso, é outra tradução que não alcança o sentido do original “Heimat”, que também tem conotação de lar.

O termo foi cooptado e deturpado pelos nazistas, que o transformaram em argumento para “raça pura” e o Holocausto. Não por outro motivo, foi deixado de lado por boa parte dos políticos durante décadas e, nos últimos tempos, resgatado pela extrema direita.

A campanha destaca trechos do programa de governo da AfD e os confronta com a realidade. Amar a pátria é chegar ao mar Mediterrâneo usando um documento de identificação simples, não um passaporte; o partido defende a saída do país da União Europeia. Ou não ter medo de ir a um hospital sem médicos e enfermeiros; a AfD quer apenas profissionais alemães na saúde, outro plano inexequível da legenda.

Em diversas cidades, os cartazes da campanha foram vandalizados poucas horas após serem instalados. “O verdadeiro amor à pátria se prova nas urnas contra o sistema atual”, responderam os militantes da sigla nas redes sociais.”

Acho muito bacana ver este legado, criado por um casal há tantas décadas (abaixo, uma ilustração de 1968) e em outro continente, continue sendo levado adiante.

No Brasil, os livros da série “Amar É…” saem pela VR Editora. E, se souber inglês, você pode visitar o site oficial: https://www.loveiscartoon.com/ .

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho no Estadão e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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