Perdemos, na semana passada, a brilhante artista franco iraniana Marjane Satrapi.

“Marjane Satrapi morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida”, diz o comunicado divulgado por seus parentes, segundo vi no G1.

Conhecida (e premiada) inicialmente como quadrinista, especialmente pela autobiográfica “Persépolis”, Marjane também ficou conhecida (e premiada) por seu trabalho como cineasta. Por isso, ao selecionar cinco obras para relembrar sua trajetória, não fiquei apenas nos quadrinhos.

Persépolis” (a HQ)

Trata-se de uma obra autobiográfica sobre a adolescência de Marjane no Irã: filha de pais comunistas em uma metrópole moderna, Teerã, mas cada vez mais influenciada pela presença de extremistas islâmicos. Seus pais foram perseguidos, e o primeiro livro se encerra com ela, aos 14, indo morar sozinha na Europa. Os três volumes seguintes retratam os próximos passos de sua trajetória, sempre com um olhar atento ao Irã contemporâneo, com um mix de crítica e paixão, sinceridade e saudade, humor e dor.

Bordados” ou “Frango com Ameixas

Ambas são lindas obras: duas HQs de não-ficção curtas, mas poderosas, inspirados em pessoas que conviveu e em ações que vivenciou no Irã. “Frango com Ameixas” (acima) retrata um músico muito talentoso que sofre de depressão profunda; “Bordados” (abaixo) retrata quatro iranianas adultas que conversam com franqueza sobre diversos assuntos cotidianos.

Persépolis” (a animação)

Seu primeiro filme foi a animação “Persépolis” (adaptando sua graphic novel). Codirigido por Vincent Paronnaud, o longa ganhou o Prêmio do Júri de Cannes (2007), os prêmios César de melhor adaptação e de melhor filme de estreia (2008) e ainda foi finalista do Oscar (em 2008, categoria “animação”).

Radioactive

Marjane dirigiu a cinebiografia da inestimável cientista franco-polonesa Marie Curie (1867-1934), aqui vivida por Rosamund Pike. Marie Curie foi laureada duas vezes com o Prêmio Nobel (Física, em 1903, e Química, em 1911) e prestou serviços maravilhosos à Humanidade por meio de suas descobertas científicas – e ainda hoje, mais de um século depois, ainda não recebe todo o reconhecimento que merece.

Mulher Vida Liberdade” (antologia de quadrinhos organizada por ela)

A estudante Mahsa Amini, de 22 anos, visitava a capital, Teerã, com a família em setembro de 2022 quando foi detida pela polícia moral do Irã por “usar o hijab de maneira inadequada”. Três dias depois, a jovem foi declarada morta em um hospital depois de entrar em coma enquanto estava sob custódia da polícia. Este homicídio foi o ponto de partida para uma onda de protestos sem precedentes que se uniu em torno do lema “mulher, vida, liberdade”. Satrapi reuniu um esquadrão de historiadores e quadrinistas para refletir o que aconteceu no seu país desde então, e o resultado é este “Mulher, Vida, Liberdade”, que reúne 17 quadrinistas como as iranianas Bakareh Akrami e Shabnam Abidan, o espanhol Paco Roca e a própria Marjane Satrapi.

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho no Estadão e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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