Em 1993, a DC Comics deu um passo interessante: criou o Vertigo, um selo de quadrinhos voltado para leitores “maduros”. A princípio, suas histórias se passariam no mesmo ambiente das demais HQs – ou seja, seus personagens dividiram o mesmo universo que os demais super-heróis da editora. Assim, por exemplo, enquanto o Homem-Animal tinha jornadas metafísicas (e até metalinguísticas) em sua revista mensal (cortesia de Grant Morrison e Chas Truog, imagem abaixo), o mesmo personagem aparecia em aventuras divertidas, mas menos refinadas, ao lado dos demais membros da Liga da Justiça.

Com o tempo, houve um distanciamento. Novos títulos traziam personagens novos e em universos diferentes, sem a existência de Superman, Batman ou Mulher-Maravilha. Ou, por vezes, eram personagens já conhecidos, mas em versões novas – o que permitia aos criadores se livrarem das amarras da continuidade e mudarem origens, uniformes, poderes ou dilemas – tudo, em tese, em prol de uma história melhor.

O movimento da Vertigo teve duas grandes consequências para o mercado norte-americano de quadrinhos: 1 – serviu de porta de entrada para artistas e criadores desconhecidos do público; 2 – apresentou à maioria dos leitores que, sim, era possível a criação de quadrinhos para adultos (como europeus e asiáticos já sabiam havia muito tempo).

Enfim, a jornada da Vertigo foi intensa e durou de 1993 a janeiro de 2020, sendo que nos últimos anos estava vivendo sob aparelhos. Nós, leitores que acompanhamos esta fase, guardamos na memória os momentos altos (“Monstro do Pântano” de Alan Moore, Stephen Bissette e John Totleben, “Preacher” de Garth Ennis e Steve Dillon, o já citado Homem-Animal).

Pois bem. Tal como um morto-vivo de “iZombie”, série lançada pela própria Vertigo (acima), este braço da DC para leitores maduros não ficou morto por muito tempo. Em 2024, a editora anunciou seu retorno. Em um primeiro momento, a única mudança prática foi que a série “The Nice House by the Sea” (publicada no Brasil como “A Bela Casa do Lago” pela Panini), que saia pelo selo Black Label, foi transferida para a Vertigo. As novidades de verdade começam agora.

Este mês de fevereiro traz os três primeiros lançamentos originais da fase 2.0 da Vertigo: “Bleeding Hearts”, “End Of Life” e “The Peril Of The Brutal Dark: An Ezra Cain Mystery”.

Ainda não li as revistas novas. Mas podemos pensar sobre o que significa o conceito do retorno da Vertigo. Acho que dá para descartar a revolução que foi mostrar aos leitores americanos que adulto podem ler HQs sem culpa – a fase 1 da Vertigo teve sua parcela de importância nisso, e esse passo já foi dado. Dito isto, é legal ver que este novo selo pode ser um ponto de partida para muitos outros projetos e pode trazer outros tipos de revolução.

A “Vertigo 2.0” (sou eu que estou chamando assim, não a editora) será uma “casa” para autores trazerem projetos criativos. Pode ser dando novos olhares a personagens que já existem, mas provavelmente serão conceitos criados a partir do zero. Podem apresentar rupturas tanto na forma como no conteúdo: pode ser uma HQ lida de baixo para cima, ou algo que precise de uma segunda leitura usando recursos da internet, ou ainda algo que precise ser fisicamente montado pelo leitor antes de começar a ler. Não sei! Mas aqui é o lugar perfeito para este tipo de experimentação.

Nós, leitores, queremos boas histórias, amigos da Vertigo 2.0. Queremos ficar com a sensação de que perdemos o equilibrio, de que estamos desorientados, suando frio, sem saber para que lado devemos ir. Surpreendam-nos! Queremos vertigem, de novo.

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Escrito por

Pedro Cirne

Meu nome é Pedro, nasci em 1977 em São Paulo e sou escritor e jornalista - trabalho no Estadão e escrevo sobre quadrinhos na TV Cultura.
Lancei dois livros: o primeiro foi "Púrpura" (Editora do Sesi-SP, 2016), graphic novel que eu escrevi e que contou com ilustrações 18 artistas dos oito países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Este álbum contemplado pelo Bolsa Criar Lusofonia, concedido a cada dois anos pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal.
Meu segundo livro foi o romance "Venha Me Ver Enquanto Estou Viva”, contemplado pelo Proac-SP em 2017 e lançado pela Editora do Sesi-SP em dezembro de 2018.
Como jornalista, trabalhei na "Folha de S.Paulo" de 1996 a 2000 e no UOL de 2000 a 2019.

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